Hoje mostramos a crônica feita pela Renata Sarcinelli, que divide conosco lembranças divertidas que tem da sua mãe em um texto emocionante! <3
“A saudade que sinto de mamãe é tanta, que a todo o momento me pego recordando suas inúmeras histórias hilárias e de certa forma embaraçosas, que resolvi escrever esta crônica em sua homenagem.
Mamãe era “sui generis,” uma mulher de mil predicados, amorosa, prestativa, companheira, dinâmica e, sobretudo, muito engraçada, ou melhor, atrapalhada. Em casa, se encarregava de nos dar amor, carinho e algumas chineladas; costurar, fazer quitandas, tocar obra, fazer as compras da casa, e manter o lar em perfeito funcionamento. De forma que papai só se preocupava com seu trabalho e sua função de pai, o resto era com mamãe.
Anualmente, antes do período das chuvas, mamãe chamava alguém para dar manutenção das calhas da casa. Era uma manhã de final de inverno e início de primavera, eu vinha chegando da aula e assim que virei a esquina vi um grande rebuliço em frente à nossa casa. Logo pensei no pior, mas quando vi mamãe rodopiando com a mão na cabeça logo entendi: era ela com mais uma de suas situações inusitadas.
O rapaz subiu no telhado para limpar as ditas calhas, mas esqueceu de levar a mangueira que usaria para fazer a limpeza daqueles encanamentos, mamãe mais do que depressa enrolou a mangueira e jogou com seu “jeitinho estovado” para o telhado sem ter o menor cuidado com a fiação de alta tensão que passava logo ali em cima.
Pode-se imaginar o que ocorreu! A mangueira bateu nos fios de alta tensão provocando um grande curto circuito que propagou fogo pelos fios da rede elétrica daquele segmento de rua. Um grande estrondo pela queima do transformador foi ouvido à distância.
A incendiária deixou todo o quarteirão sem luz e sem telefone o resto do dia. Este pequeno momento de alguns segundos pareceu-lhe a eternidade, pois a coitadinha ficou desesperada e rodava feito pião na mão de menino. Com as mãos na cabeça chamava por Nossa Senhora da Penha! Meu Deus do Céu! Além de toda lista de santos que lembrara.
Se de um lado da rua mamãe se desesperava com toda a confusão que aprontara, do outro lado, no escritório onde meu irmão trabalhava, os vizinhos dos prédios adjacentes, os passantes da rua e todos que ouviram o estouro ou viram o fogo, chegavam às janelas e às portas de suas casas para ver o acontecido. E davam boas risadas e gritavam para a vizinhança: “corram gente, venham ver Celú (apelido carinhoso que os mais chegados a chamavam) incendiando o quarteirão!”
Ainda atônica, sem ter noção do que acontecera e sem saber do que ela própria provocar, aparece o encanador na beirada do telhado com apenas um pedacinho da cabeça para fora, e ela, mais do que depressa, aliviada do terror de ter acontecido algo com o rapaz grita: “menino, pelo amor de Deus, graças ao bom Pai você está vivo! Desça daí danado! O que aconteceu? O que você fez? Aonde você mexeu? Eu pedi que você limpasse a calha! Não era para mexer na fiação da rua. Você está ficando louco!”
– Eu não fiz nada Dona Célia, foi a senhora quem pôs fogo na fiação!
– Eu! Minha Nossa Senhora da Penha foi a mangueira que eu joguei para você que causou tudo isto? Mas onde eu estava com a cabeça de fazer uma coisa desta? Pelo amor de Deus! Desce daí, desce que hoje nós não vamos mexer com calha coisíssima nenhuma pondo um ponto final em toda sua atrapalhada.
Na verdade, Celú deixou muito claro para mim: mãe é incendiária, (não necessariamente incendiando quarteirões), é chama de amor eterno que desperta para a vida. É ser sublime, doce, de sentimentos nobres, fortes e sensíveis, bravos e suaves, alegres e responsáveis, valentes e ternos. Guerreira imortalizada em nossa memória, exemplo de vida, companheira inseparável, equilíbrio, inspiração para nós que a admiramos e que por meio dela recebemos o dom maior: a vida.
Hoje, se a saudade me dói no fundo da alma, suas histórias inusitadas me trazem bons momentos de gostosas gargalhadas que me confortam.”
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