QUANDO O ADULTÉRIO ACABA
Esses dias, um bróder me abordou, abrindo o coração. Estava inconsolável porque tinha perdido… a amante.
Isso mesmo. Homem casado, estava simplesmente enrabichado por uma senhorita, com quem vinha tendo uma relação incendiária. Só que, tempo depois, ela se amarrou em outro e pediu a rescisão do contrato de terceirizada.
Assim, com o coração em frangalhos, fizemos daquele bar confessionário e, como se eu fosse a pessoa mais indicada a dar conselhos nessa área, ele me pediu ajuda, conselho, ombro amigo. E lá vamos nós, que sabemos como pode doer um cotovelo, e como um bar tem efeito curativo.
É uma situação complicada de apresentar a vocês, senhoritas, porque temos um réu confesso que se lamenta JUSTAMENTE por não poder mais pular a cerca. Uma dor difícil de se compadecer, de um canalha que vocês adorariam ver exposto em praça pública numa jaula, vestido de palhaço, num dia de distribuição gratuita de tomates. Enfim, é alvo fácil.
Mesmo assim, conto essa história; é sempre bom lembrar àquelas que andam com caras comprometidos que, sim, elas têm um enorme valor.
Deu pena, porque o mundo é assim: pessoas traem, pessoas são traídas, pessoas ajudam a trair, nunca fica uma situação agradável, e é difícil evitar qualquer sentimento num desses vetores do adultério, não interessa se você é homem ou mulher. “Homens traem por esporte, mulheres traem por vingança” é daqueles pensamentos que caducaram, depois que o feminismo triunfou. Criaram-se ainda mais variáveis nessa falta de talento que tantos de nós têm para o convívio, e não falta mulher-atleta por aí.
Da mesma maneira, nem sempre quem trai é um canalha. Sei que é uma frase difícil de sustentar, mas a verdade é que nunca se sabe exatamente o que acontece nos calabouços de um casal. Conheço um bróder que começou a trair depois de passar meses sem sexo – por decisão unilateral de sua própria namorada. Como ficou na dúvida se o problema era com ele, foi tirar a prova dos nove e, segundo suas palavras, viu que “ainda era capaz de divertir muita gente”. E como tinha uma tremenda paixão pela namorada grevista, punha-se à espera de uma solução para aquele jejum na relação – só não esperava sentado.
Perguntei ao bróder lá do início se ele ainda estava a fim de sua mulher. “Jamais a deixaria”, disse-me, com ar responsável, “mas a rotina anda matando”. “É a mulher da minha vida”, afirmou, lembrando-se de qualquer coisa que parecia distante, mas que merecia algo de fé, pois talvez pudesse ser recuperada.
Desejei-lhe sorte; afinal, sempre sofre mais um coração em que cabe tanta gente.