Acerto de Chifres
A história que segue mostra como os bons canalhas se resolvem entre si.
Era um bróder orgulhoso. Vangloriava-se com frequência de seus atos, era bonachão com os amigos, indomável com as mulheres e costumava dizer no trabalho que era individualista mesmo: “Foi com esse estilo que me consagrei”, afirmava, resoluto. Um dia, descobriu que seu telhado já fora de vidro.
Numa dessas benditas redes sociais, sua ex-namorada vigente deixou escapar num comentário uma pista conclusiva: ao fim do relacionamento, ele fora corno. Os anos já haviam passado, a suspeita sempre havia estado presente, mas dessa vez ele tinha certeza total: não só costuraram sua namorada durante a crise do casal como ornamentaram sua cabeça ali, debaixo de suas barbas.
Deixou escapar um “Vadia!” momentâneo, mas pensou, conformado, que não poderia reclamar, já que na cabeça dela também incontáveis chifres haviam sido pendurados. De qualquer forma, o crime prescrevera: ela ainda namorava o crápula, e mesmo nosso anti-herói já havia namorado outras. Sair na porrada é demodê, e ele acreditava na civilização
Mas nessas coincidências da vida, um dia o tal bróder foi convidado a jogar uma pelada, R$ 10 por cabeça, num clube da região. Ao chegar no gramado sintético, reparou que tinha diante de si… o crápula. A vingança perfeita parecia surgir ali, na sua frente.
Analisou-o bem, como um pugilista disposto a retomar a carreira. O crápula, que não o reconheceu de primeira, usava uma camisa de um clube arquirrival, o que lhe aguçou a antipatia, e não era dotado de carcaça sólida. E nem tinha intimidade alguma com a pelota – só fazia embaixadinhas com a coxa, o que, como se sabe, é coisa de prego. Assim, o bróder fechou os olhos e torceu para que os deuses do Par ou Ímpar os colocassem em lados opostos. Não deu outra. Viu o crápula querendo ser atacante do outro time e disse aos seus, com voz serena.
– Eu fico na zaga.
(Vocês, moças, não sabem, mas jogar na defesa é um ato de extremo desapego. É quase paternal, porque você fica lá atrás dando duro enquanto as crianças se divertem:se um atacante erra, é azar; se um zagueiro erra, é uma catástrofe. Não é divertido).
Segundo o relato dele, jogou como um leão. “Não deixei a criança pegar na bola”, disse, com sorriso nos lábios. “Mas foi numa bola dividida que eu me vinguei”.
A História conta que, numa disputa de bola pela esquerda, o zagueiro encontrou o atacante numa trombada gladiatória, como um choque de machos de um rebanho de búfalos, com a diferença de que um deles tinha o aspecto de um cervo; o crápula voou do chão e parou no alambrado; como aterrissou mal, torceu o tornozelo e saiu de campo, como uma presa fácil.
Ao fim do jogo, o bróder zagueiro saiu de campo como um Bruce Willis, deixando um rastro de explosões atrás de si. Jogou uma nota de R$ 20 no ar e disse ao lesionado, que punha gelo na perna.
“Nada contra pegar a mulher dos outros, brou, mas… faz direito na próxima.”
A PLAYBOY DE CLÉO PIRES E A VULGAROMETRIA
Há algum desequilíbrio na Força. A quantidade de mulheres que comenta a Playboy deste mês, que estampa a atriz Cléo Pires, está fora do normal. Muitas receberam as fotos pela internet antes mesmo de mim que, confesso, não sou lá um grande consumidor de pornografia.
(Explico: completei 32 anos neste mês, então já tenho uma vaga ideia de como qualquer mulher fica quando nua. Raramente surgem novidades. Ainda assim, a Playboy é uma ótima revista, num mundo em que as publicações andam cada vez mais desinteressantes para o macho cristão ocidental. Já assinei Playboy, juro!, por causa das entrevistas. São as melhores do país, quando o entrevistado é bem escolhido, mas quase nenhuma namorada se convence dessa minha versão.)
Mas eu pensava antes e reafirmo: o que faz tantas mulheres se ligarem, com tanta curiosidade, devoção e posterior admiração, à Playboy de Cléo Pires? O que torna a Playboy de Cléo Pires um item de consumo feminino, sério candidato a repousar lânguida sobre os sofás dos melhores cabeleireiros e manicures da cidade?
Mulheres têm critérios para julgar mulheres extremamente diferentes dos dos homens. Não é apenas a beleza e gostosura – o que por si só já tornaria qualquer dançarina do Faustão interessantíssima, como diz o filósofo contemporâneo e bróder do DF Ricardo Henrique; elas processam todas as informações colhidas a respeito da tal mulher, numa equação complicada.
São ponderados bom comportamento, escândalos, declarações, modos de atingir a fama, influência sobre os homens, plásticas, currículo de namorados. Cogitam se pegaria mal ser vista conversando animadamente com a examinanda e por fim se perguntam inconscientemente: “Será que eu gostaria de ser igual a ela?”. Poderíamos chamar essa ciência feminina de “vulgarometria”.
Sob esses critérios, Cléo Pires passa quase com louvor. É filha de um casal digno: um cantor romântico importante com uma atriz de tarimba – se em vez de Fábio Júnior fosse Orlando Moraes, talvez sua ótima nota caísse um pouco. Estudou balé clássico em vez de dança da garrafa, o que derruba Sheila Mello; deu seus primeiros passos rumo à fama em filmes menos constrangedores que o normal, que talvez seja um dos crimes de Giovanna Antonelli; nunca pôs silicone, como Daniele Winits; nunca saiu na mão em público, o que virou pecha para Luana Piovani; por fim, as fotos de sua Playboy são elegantes, mais insinuantes que ginecológicas, mais poéticas que provocadoras, o que já ceifou Adriane Galisteu, Juliana Paes e Karina Bacchi. No índice vulgarométrico, Cléo Pires é o extremo oposto de Larissa Riquelme, que vai ser a próxima estrela da revista porque, ávida por novos trabalhos, metia celulares no meio dos peitos espremidos em tops nas arquibancadas da Copa. Na África. E, ainda por cima, é paraguaia. A única coisa que faz da vida é ser gostosa.
Bom, estive diante das duas, na festa de lançamento da Playboy. Quando Cléo Pires chegou, linda, apresentável em qualquer festa de Natal em família, passeável em qualquer shopping, sua mãe a esperava na área VIP. É belíssima, mas é uma nudez-família, de exagerado bom gosto, uma nudez que quase não é nudez, porque relaxa em vez de provocar como Cléo Pires poderia. Tem poemas escritos pelo corpo, sua depilação é conservadoramente bela, e a sensação que temos ao folhear a revista é que Cléo Pires posou para a Boa Forma. As mulheres vão se lembrar desta Playboy por décadas a fio quando precisarem de um parâmetro para posarem nuas. Os homens vão se lembrar que Larissa Riquelme viria um mês depois.
Ela também estava lá na festa. De vermelho, num vestido que disse ser criação sua, com nacos de carne vigorosamente expostos, além de uma marca de biquíni canina. Vejam as fotos aqui.
Quando ela surgiu, bem antes de Cléo, o índice vulgarométrico apitava alto: as repórteres e os repórteres gays de celebridades comentavam toda a falta de virtude da paraguaia, à espera da nudez redentora, feminista e feminina, de Cléo. Quando vi Larissa, tive certeza de que ela sabe latir. E não consegui pensar em shopping, cinema, Natal, nada disso. Larissa representa o que há de mais urgente no sexo oposto, uma mulher para consumo masculino, uma mulher que não entrará para a História nem para as histórias de ninguém. Mas ela se torna a mulher mais imprescindível do mundo no justo momento em que você a vê. É salivação pura. Eu ainda pretendo me casar, ter filhos e me tornar um homem respeitável ao lado de Cléo Pires, mas, caso pegasse Larissa, contaria para cada bróder que jogasse bola comigo.
A Playboy de Larissa vai vender menos que a de Cléo Pires. Mas a ideia de “revista masculina” será, inegavelmente, retomada.
QUANDO O ADULTÉRIO ACABA
Esses dias, um bróder me abordou, abrindo o coração. Estava inconsolável porque tinha perdido… a amante.
Isso mesmo. Homem casado, estava simplesmente enrabichado por uma senhorita, com quem vinha tendo uma relação incendiária. Só que, tempo depois, ela se amarrou em outro e pediu a rescisão do contrato de terceirizada.
Assim, com o coração em frangalhos, fizemos daquele bar confessionário e, como se eu fosse a pessoa mais indicada a dar conselhos nessa área, ele me pediu ajuda, conselho, ombro amigo. E lá vamos nós, que sabemos como pode doer um cotovelo, e como um bar tem efeito curativo.
É uma situação complicada de apresentar a vocês, senhoritas, porque temos um réu confesso que se lamenta JUSTAMENTE por não poder mais pular a cerca. Uma dor difícil de se compadecer, de um canalha que vocês adorariam ver exposto em praça pública numa jaula, vestido de palhaço, num dia de distribuição gratuita de tomates. Enfim, é alvo fácil.
Mesmo assim, conto essa história; é sempre bom lembrar àquelas que andam com caras comprometidos que, sim, elas têm um enorme valor.
Deu pena, porque o mundo é assim: pessoas traem, pessoas são traídas, pessoas ajudam a trair, nunca fica uma situação agradável, e é difícil evitar qualquer sentimento num desses vetores do adultério, não interessa se você é homem ou mulher. “Homens traem por esporte, mulheres traem por vingança” é daqueles pensamentos que caducaram, depois que o feminismo triunfou. Criaram-se ainda mais variáveis nessa falta de talento que tantos de nós têm para o convívio, e não falta mulher-atleta por aí.
Da mesma maneira, nem sempre quem trai é um canalha. Sei que é uma frase difícil de sustentar, mas a verdade é que nunca se sabe exatamente o que acontece nos calabouços de um casal. Conheço um bróder que começou a trair depois de passar meses sem sexo – por decisão unilateral de sua própria namorada. Como ficou na dúvida se o problema era com ele, foi tirar a prova dos nove e, segundo suas palavras, viu que “ainda era capaz de divertir muita gente”. E como tinha uma tremenda paixão pela namorada grevista, punha-se à espera de uma solução para aquele jejum na relação – só não esperava sentado.
Perguntei ao bróder lá do início se ele ainda estava a fim de sua mulher. “Jamais a deixaria”, disse-me, com ar responsável, “mas a rotina anda matando”. “É a mulher da minha vida”, afirmou, lembrando-se de qualquer coisa que parecia distante, mas que merecia algo de fé, pois talvez pudesse ser recuperada.
Desejei-lhe sorte; afinal, sempre sofre mais um coração em que cabe tanta gente.
O recado de Casillas e Sara
Preocupado que estava com meu artigo desta semana, cheguei a me antecipar e escrever o making of Bala Perdida, aquela lenda que publiquei há 15 dias. Mas isso quase me fez perder a belíssima oportunidade de celebrar aquilo que se viu nas TVs e YouTubes do mundo: o momento em que o goleiro-capitão da Espanha quebrou o protocolo e beijou sua namorada-repórter no meio de uma entrevista após erguer a taça.
É o sonho de tiração de onda de todo homem. Jogar um partidaço, levantar a Copa do Mundo como capitão diante de bilhões, beijar sua linda garota também diante de bilhões e, mais tarde, pedir licença aos bróderes para dar uma comparecida. Houve fotos posteriores provando que Iker Casillas abandonou qualquer tipo de festa da vitória com os colegas e foi parar no hotel de Sara Carbonero. Essa sequência de fatos num único dia é tão perfeita que me permitem dizer que, desde segunda-feira, tudo que Casillas viver na face da Terra será decadência. O topo de tudo já rolou.
“Todo cavaleiro andante tem uma dama à qual se recomenda nas batalhas”, lembra Miguel de Cervantes no “Dom Quixote de La Mancha”, ambos espanhóis como Casillas e Sara. O que não se sabia (pelo menos aqui deste lado do planeta, onde os goleiros se comportam bem pior) é que Iker lutou nove meses para conquistar Sara; um espaço de tempo tão longo que acaba confiscando pedestais de muitas musas por aí.
Leio aqui e ali que foi um período de flores e convites recusados, porque Sara tinha um namorado repórter. Mesmo assim, o goleiro do Real Madrid não esmoreceu; sabe-se que muitas vezes, mulher bonita precisa ser roubada, e a Declaração dos Bróderes autoriza o crime quando o bróder não é um bróóóóder. Ela terminou com o namoro, fez um docinho de meses e acabou ali, beijada em pleno expediente, pelo cara que transformou a Espanha numa equipe histórica. Roteiro de comédia romântica média, daquelas com o Hugh Grant, e justamente por isso, o maior barato.
Numa Copa que teve como presença feminina mais marcante a gostosona paraguaia Larissa Riquelme, que ensinou ao mundo a prática funkeira de guardar o celular no meio do top e ainda assim tem o seu valor, a ascensão de um amor aos 15 minutos do segundo tempo da prorrogação é bem-vinda. Faz com que nós machos nos lembremos dos motivos que nos fizeram aprender a jogar bola e gostar de escovar os dentes: um beijo de vitória.
Não deixa de ser um convite às senhoritas que andam por aí, refratárias não sem razão, confeiteiras de doces duradouros, já que, sim, tantas cicatrizes não podem deixar menos do que um aguçado sentimento de autopreservação. Mas pensem: Casillas poderia ter desistido de Sara naqueles nove meses de árdua empreitada e poderia terminar beijando uma baranga depois da final, o que seria uma quebra de protocolo ainda pior.
É favor ajudar o roteiro, senhoritas. Um dia, pode ter gente assistindo e querendo aplaudir.
A LENDA DE BALA PERDIDA
Bala Perdida era de quem o pegasse.
Homem de domínio público, não cobrava royalties, mas não vendia a prazo. Tudo com ele era à vista. Não ligava no dia seguinte, embora sempre pedisse o telefone das senhoritas que beijava. Acreditava que pedir o telefone era uma espécie de elogio obrigatório.
Bala Perdida tinha um quê de Clint Eastwood nos faroestes de antigamente, “The Man with No Name”. Chegava com a autoridade de quem anda armado, olhava o povoado como quem se candidata a xerife e fazia a justiça conforme lhe parecesse melhor. Depois saía, num trote solitário, disparados os tiros necessários. Espírito sem raízes, pedra que rola sem criar limo, teve a sorte de até hoje todos os DNAs terem dado negativo. Não era de olhar para trás.
Seu nome era conhecido na cidade. Falava-se que, um dia, todas as mulheres por quem passou fariam um bloco de carnaval de proporções retumbantes. Ele, no entanto, negava essa fama, não queria homenagens. Olhava-se no espelho e sabia que tinha uma missão.
Tinha péssima memória para nomes de homens. Lembrava da Lição de François Truffaut, que não tolerava companhia masculina depois das sete da noite. Se fazia alguma exceção, era nos dias em que jogava bola.
Por uma questão de elegância e outra de superstição, usava sempre a mesma marca de preservativo, por apreciar o corte. Sonhava com o dia em que seria descoberta a cura da camisinha.
Bala Perdida não tinha lá muitos critérios de beleza, nem fazia questão disso. ”Não julgue para não ser julgado” era outro dos mandamentos de seu credo particular. Rezava a cartilha do Dogma de São Jorge: “Dragão se mata na Lua, e não na frente dos amigos.” Foi assim que descobriu que há mulheres para os fins de semana no cinema e mulheres para as noites mortas de segunda e terça, às quais só ao porteiro da noite era dado conhecer.
Assim era Bala Perdida, homem de cristalinas intenções e temperamento rude. Um cavalheiro que não usava fio dental, um cotovelo que nunca viu hidratante. Sua arma era o olhar pontiagudo, seu disparo a frase de sempre, sem volteios:
“E aí, gata… BORA curtir nossas sexualidades?”
Homem que simplificava, espalhou felicidade no mundo sem levar nada em troca. Viu a beleza que cabia a cada mulher com precisão. Como só pegava de raspão, Bala Perdida nunca matou ninguém. Nunca precisou deixar saudades.
Era apenas a sua missão.
IMPEDIMENTOS
A Copa é justamente quando as mulheres aplicam um comportamento feminino demais num campo em que raramente pisam.
Mulheres SUSPIRAM pelos homens bonitos, de uma maneira que não existe vice-versa. A adoração descabelada sem que o alvo da admiração esteja presente é um traço feminino. Homens fazem de tudo para serem notados, por isso cantam as moças. Mulheres não: preferem admirar fotos em seus quartos, ficam tensas diante de telas de cinema e comentam com as amigas num tom acima do estridente etc. O uso que fazemos de publicações mensais sérias, como a Playboy, nem sequer se compara a isso.
E aí que ver a Copa entre vocês mulheres tem suas roubadas. Desde que o mundo é mundo, não convém assistir a Itália e Argentina com muitas moças – pode ser mais barulhento que uma fanfarra de vuvuzelas. Às vezes, a impressão é que, mesmo assistindo à mesma TV, trata-se de um programa completamente diferente.
Como agora as mulheres andam até colecionando figurinhas, muitas sabem mais nomes de jogadores do que eu. E agora também torcem por Alemanha, Espanha e até azarões como Uruguai e EUA. “O amor é um desejo por beleza”, escreveu Miguel de Cervantes, autor de “Dom Quixote”. Ok, não é amor o que elas sentem, mas, se as faz verem partidas e mais partidas de futebol ruim, no mínimo deve ser apaixonante. E não deixa de ser uma excelente oportunidade para se entender a Regra do Impedimento.
A mulher costuma ganhar um certo charme quando fala de futebol com propriedade. É encantador ver que a mesma mulher que idolatra o Cannavaro consegue entender quando ele está ou não na mesma linha do atacante. Então vou explicar aqui a regra do impedimento, para vocês mandarem bem e criarem um séquito de bróderes até o 11 de julho.
O impedimento é quando, no momento do passe, um jogador recebe a bola no campo do seu adversário, tendo apenas um rival à sua frente – normalmente o goleiro. Ou seja:
1. Se no caminho para o gol, eu só vejo o goleiro à minha frente quando recebo um passe, é bem provável que eu esteja impedido.
2. A única coisa que pode me “desimpedir” é se um adversário estiver junto comigo numa linha imaginária paralela à que divide o gramado. É quando ele me “dá condição”, porque entende-se que aí ele teria que enfrentar dois adversários (normalmente o goleiro mais um) para chegar ao gol.
Essa regra impede que o atacante fique em cima do goleiro, atrapalhando-o.
Tudo bem que isso depende da interpretação do bandeirinha. “Dar condição”, no futebol e no amor, não é líquido e certo. Nessas horas, nós costumamos reclamar com o juiz: “Pô, ela tava me dando condição, aí eu fui!”. É como ver grandes gols anulados por má interpretação.
Tipo um cara que eu vi outro dia, que sempre foi apaixonado por uma amiga que ele sabia ser lésbica. Num churrasco, ela começou a permitir os abraços dele e até beijos na boca, mas ainda assim com uma certa leveza, coisa de generosidade entre amigos. Era difícil saber se era hora de levantar ou não a bandeira de impedimento ali. Eu jurava que ele ia partir para o abraço, cedo ou tarde. Saí do churrasco e depois fiquei sabendo que a lésbica deixou nosso herói e acabou ficando com outro cara À VERA, na frente dele.
Entenderam? Entre nosso herói e o golaço, havia só um adversário à frente. Impedimento é isso.
Espero que ele não tenha abandonado a carreira depois dessa.
UMA HISTÓRIA SOCIAL DA CANTADA
- E aí, gatinha, é teu aniversário hoje?
- Não, por quê?
- Pô (olha de cima abaixo), mas você tá de parabéééééns…
Essa talvez tenha sido a grande cantada durante a minha adolescência na Zona Western do Rio. Era necessário prolongar malandramente a última sílaba, como se isso ressaltasse o deslumbramento, mas o principal efeito, logicamente, era o humor. Se dava certo? Bem, acho que pelo menos umas três vezes vi o alvo rolar de rir e baixar as armas e assim pude tecer um papo-aranha envolvente.
Nos nossos tempos de cinismo, a cantada se reduziu a isso: uma bomba de efeito moral, humorística entre o inteligente e o infame, muito longe de todos os seus séculos de história, quando os bróderes realmente criavam melodias sobre as mulheres e as entoavam em serenatas e hinos de amor.
Mil exemplos lembráveis: o amor do deus da música Orfeu por Eurídice, o rei Salomão cantando a moça sulamita na Bíblia, os sofridos trovadores medievais e suas cantigas para as donzelas castas, as serenatas dos boêmios da era moderna. Posso chutar que foi dessas manifestações musicais que provavelmente surgiram as expressões “dar uma cantada”, “cantar a moça” etc.
Dá para dizer, sem medo de errar, que a cantada é um gênero artístico. Não sei de que exatamente: música, poesia, teatro? Tanto faz e, além disso, é uma espécie de esporte, pois visa a um prêmio. Exige engenho, inspiração e esforço.
Hoje a cantada enfrenta talvez sua pior entressafra. Assim como um dia houve o futebol-arte, a “cantata dell’arte” um dia existiu, mas foi substituída pela cantada de resultados. Por quê? Bom, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, dizia o mestre-cantor Luís de Camões, e nada mudou mais do que a mulher.
A donzela dos balcões hoje não se engana mais com esse papinho de castidade e pior: acha medieval essa coisa de receber elogios. Algumas amigas me dizem que “detestam”, outras que ficam nervosas. É até engraçado, porque nunca antes na história desse país as mulheres se produziram, malharam, se depilaram e se maquiaram tanto. No entanto, muitas ainda não estão preparadas para serem cantadas em verso e prosa por desconhecidos nas ruas. Desperdício.
É nas ruas que os bróderes com inspiração e leveza ainda praticam os rudimentos da cantada artística, de improviso, sem preocupação com o placar. Passa uma moça e perguntamos se é aniversário dela, se ela está esperando o ônibus, exclamamos a Deus um “QUÊ QUÊ ISSO” superlativo, decretamos feriado e mandamos o trânsito parar. Não se irritem com essa gaiatice, é a manutenção das tradições artísticas.
Não cantar a mulher que passa é decretar que o cinismo venceu. Até nos melhores canteiros de obras da cidade pode-se encontrar um poeta da construção civil capaz de um shiatsu no ego. Há coisas que não podemos negar a vocês, por dever moral.
É como a velha lenda broderiana do homem que finalmente conseguiu sair com a Mulher Mais Linda da Cidade. Diz a História que ele a levou ao teatro e depois jantaram juntos, mas, no fim, ao despedir-se, ele nem sequer tentou beijá-la. O fato tornou-se conhecido, o que lhe rendeu acusações severas de omissão diante da beleza, negligência contra a bênção divina e lesa-irmandade. “Não se ofende um pitéu desse jeito!”, bradaram em seu julgamento.
E nunca mais lhe apresentaram nenhuma amiga de namorada. Bem feito.
FIEL COMO UM CÃO
Estava em minha casa, ouvindo um noturno de Chopin e arquitetando o SMS perfeito para fisgar minha musa, quando de repente alguém me aciona num Messenger. Era uma moça, e as moças, como se sabe, merecem atenção e mentiras sinceras.
- Você acredita na fidelidade?
- Olha… eu diria que meu sonho é ser fiel.
Aí ela me contou de um velho peguete, a quem ela concedera uma “despedida” antes que ele se casasse, há um ano. Na última semana, no entanto, eles se encontraram, e ele a abordou. Ela indagou: “Ué, mas você não tinha se tornado fiel?”, e recebeu como resposta: “Casei, mas não virei trouxa”.
Isso para ela foi uma decepção, porque achava que ele iria se endireitar, e a irritou muito que a fidelidade fosse considerado um traço feminino. O que não impediu, no entanto, que rolasse naquela mesma noite um ótimo revival, segundo ela.
Eu digo que o rapaz foi infeliz na resposta. Não sabe ele que convém a todo bom canalha mostrar um traço de culpa, até quando se explica para sua amante. Não se pode ser canalha e triunfante ao mesmo tempo, ou ter certeza de sua superioridade sobre todos os homens casados.
O bom canalha é um ilusionista: permite que tanto a oficial quanto a filial acreditem que, em algum lugar de sua alma, existe um canto exclusivo para cada uma delas. Enfim, o bom canalha é aquele que, mesmo sendo infiel, consegue manter acesa a crença de ambas, mulher e amante, na fidelidade.
– Mas por que insistir nessa ilusão da fidelidade, Márvio? – perguntará a leitora – Por que não aceitamos logo que vocês homens são todos uns cachorros, que não podem ver um pedaço de carne disponível, e que não têm o menor talento para a monogamia? E por que você mesmo não começa a latir desde já?
“Au, au”, penso eu. Mas não vou deixar barato para vocês, afinal de contas, tem milhões de bróderes ao redor do mundo que confiam em mim. É muito nóis. E assim respondo, do alto das minhas pirâmides:
Primeiro: há uma culpa que é de vocês. A moça lá do alto poderia ter ensinado a ele uma ou duas coisinhas sobre a fidelidade, em vez de topar um revival. Segundo, que eu mesmo poderia citar aqui um ou outro bróder fiel, todos da vida real, o que só prova que generalizar é sempre um equívoco.
Aliás, um desses meus amigos, que namora uma mulher que é bastante areia para o seu caminhão, me confidenciou:
“Não tenho a menor vontade de chifrar a Fulana, mas ela é ciumentaça. Ela acha que eu passo o rodo geral, só porque a gente se conheceu numa época em que realmente eu tava sem nenhum critério.”
Como ele nunca foi essa coca-cola toda, concluímos juntos que, para ele, o melhor era que ela continuasse pensando assim.
O HOMEM DIANTE DO TOCO
Quando eu era garoto, bonzinho e dava meus primeiros chutes, meu pai, atleta de fim de semana, me concedeu certa vez seu ensinamento mais profundo:
“Futebol é do cacete porque te ensina a ganhar, a perder e até a empatar – que é quando não acontece nada.”
Não parece não, mas é uma lição de vida. O fato de ser um esporte especial torna a derrota muito sofrida, mas ainda assim nos acostumamos com a certeza de que haverá uma outra chance. E esse aprendizado é fundamental para outro jogo, de azar, que envolve vocês. Aquele, no qual a derrota se chama cariocamente de “levar um toco”.
Atravessar esse momento é um divisor de águas nas vidas masculinas. É uma etapa, um rito de passagem. Cedo, cedo aprendemos a lidar com a rejeição. E olha que vocês sabem ser cruéis das mais variadas formas.
Conheço um cara que certa vez ouviu de uma mulher: “Primeiro nasce de novo, depois volta aqui”. Ele saiu feliz, porque teve perspectiva de uma outra chance.
Na minha adolescência, quando eu tinha lá meus platonismos e complexos de vira-latas, evitava o toco. Se as probabilidades estivessem contra mim, preferia viver a eterna possibilidade em vez de dar o pescoço para a guilhotina da mulher amada. E assim me arrastava, escrevia poemas, suspirava etc.
(Enfim, isso era quando eu era bonzinho e acreditava nessas coisas. Hoje, sei que as mulheres não dominam mais a arte perdida de receber poemas e, felizmente, entendi isso antes de morrer tuberculoso.)
Mas só consegui desmistificar mesmo o toco quando ouvi um bróder experiente me dizer, solene como o Mestre dos Magos:
“O toco forja o caráter. Leve-o.”
E assim eu fui, com muito tato, calma, respirando fundo, escolhendo as melhores palavras, e ouvindo, com ódio, que ela adoraria que eu fosse seu “amigo” – e nessas horas, “amigo” é sinônimo de eunuco.
Dessa experiência original, várias se derivaram. Hoje posso dizer que sou um homem realizado nessa área, com um background que me permite levar, até mesmo, de um a quatro tocos da mesma mulher. Uma espécie de Rocky Balboa do amor.
No Livro da Sabedoria dos Bróderes, lê-se que um toco revivido cria uma “intimidade sorrateira”, algo como uma piada interna entre a toqueira e o tocado, e de repente lá pela quarta vez até tem jeito. Se há perserverança, é porque a gente sabe diferenciar derrota de empate.
O problema, segundo ela, é que, ao se explicar, nosso herói se disse “confuso”: afirmou que ela era “especial” e que o problema era “a distância”. Ela me pediu opinião, e eu, certo de que fulano não era da Liga dos Bróderes, fui categórico: “Isso é manutenção de marca”.
Diante da promessa de algo bom na vizinhança, nosso herói resolveu apostar no presente e apagou o passado. No entanto, disse à minha amiga exatamente o que ela queria ouvir: “a distância”, “especial”… “confuso”.
(Além disso, repare na cumplicidade forjada: a “especial” sabe da oficial, mas a oficial não sabe da especial; assim, a especial tem uma confortadora sensação de superioridade. É como se um super-herói revelasse ao seu amor sua identidade secreta, algo que o mundo inteiro adoraria saber, mas só ela tem).
Homens e mulheres perpetram essa prática hoje, levados por vaidade, carência afetiva, garantia de sexo eventual, medo da solidão ou até uma patológica e sincera indecisão diante da oferta. Muito embora amor seja milagre – e milagre, como se sabe, é mais caro –, nunca antes na história deste país choveu tanto na horta dos solteiros e solteiras, e nunca se atribuíram tantos benefícios à vida sexual ativa – pele mais bonita, melhor funcionamento dos órgãos e, claro, histórias mais interessantes no papo com as amigas.
Com Facebook, SMS e todas essas vias de comunicação que dispensam o olho no olho, machos e fêmeas se tornaram investidores num mercado de ações afetivas. Periodicamente, observam a cotação das “empresas” em que têm “participação” e esperam o melhor momento para, de vez em quando, realizar “os lucros”. Homens costumam ser mais previsíveis, como adoramos ser: usam ciclos de tempo, dizem coisas agradáveis e mandam convites vagos, como “A gente precisa se ver, hein?”. É um jogo de controle e consumo.
(Aliás, outra amiga me contou que, ao deixar um camarada usar seu computador, ficou impressionada com o “método”: abriu seis janelinhas de chat, todas com rostos femininos, mandou um “Oi, gostosa!” para todas e, a partir daí, começou o leilão de sua noite).
Os métodos femininos são bem menos, hã, indexáveis. Normalmente é aquele milenar jogo de cena ao vivo: da provocação do ciúme à simulação de ciúme, passando até pelo ciúme-que-não-tem-razão-de-ser, tudo isso a fim de testar o magnetismo junto ao eleitorado. Mas alguns bróderes já identificam muitas acionistas cibernéticas, para espanto e precaução dos outros. Estamos alertas.
Pobres moços
Pude presenciar esses dias uma cena rara, que muitas de vocês pagariam para ver por puro prazer sádico. Naquela noite, éramos quatro amigos que conversavam sobre as mulheres que perderam (ou que vão perder), corações em frangalhos pedindo cerveja e falando abertamente de nossas dores.
Um bróder lamentava a mão do destino, que levava sua gata para longe; o outro queria saber o que fazia sua ex, que havia sido vista numa festa por um de nós; o terceiro bróder tinha dúvidas: voltar ou não para sua ex-vigente. E eu, que já vivi todos esses papéis, fazia o possível para dar-lhes a necessária “visão-de-fora” e levantar o moral da mesa. Estava difícil: a amargura daquela conversa fazia a cevada parecer mais doce.
(Por pura sorte, eu não estava à altura deles no momento: minha última desilusão tinha rolado semanas atrás, quando pedi o telefone de uma célebre musa da época da faculdade. Recebi dela um “não” tão digno e sereno que, juro, quase agradeci).
Diz o dramaturgo Domingos Oliveira que jamais deixaremos de sofrer por vocês, mesmo que muitas não acreditem muito nisso. É que choramos assim, em pequenos grupos, com discrição, porque perder a fama de mau é um golpe duro no marketing – e meus amigos sabiam disso.
Acompanhar aquela exposição de feridas sinceras me lembrava dos meus próprios lutos de amor. É que a mulher amada tem tanta magia que os verbos com ela conjugam passado, presente e futuro simultaneamente; se você tira isso de um homem contra a vontade dele, a cicatriz fica, por mais que seja possível soterrar alguns sentimentos com um pouco de, digamos, devassidão. E sim, baby, dói mais do que as senhoritas poderiam imaginar – vocês, que dão à luz, resistem muito mais à dor do que nós.
No filme “Vicky Christina Barcelona” (2008), de Woody Allen, em que o pintor Juan Antonio (vivido por Javier Bardem), passa uma cantada simultânea em Scarlett Johansson e Rebecca Hall, em falas tão deliciosas que, apesar de toda a cafajestagem, muitas mulheres adoram. Ao longo do filme, explica-se: tanta desenvoltura era uma resposta à perda do amor completo, que a artista Maria Elena (Penélope Cruz) lhe dava. Todas as outras estavam tão abaixo dela que, no fim, pouco importava quem cantar primeiro, e aí, ele teve que se reinventar.
A cada vez que a amada se vai, nós nos confrontamos com uma solidão que é transformadora. Quando o paraíso nos expulsa, podemos nos tornar tanto santos quanto lobos. E essa bifurcação, sim, faz chorar, por ser uma queda livre, por ser incerta, e por, às vezes, não ter volta. Depois, a gente até sai por aí fingindo que não doeu; essa é justamente a parte em que vocês adoram acreditar.
Mal sabem as mulheres que nós homens, em algum momento da vida, já sonhamos ser fiéis. Temos nossos motivos: desde querermos ser melhores que nossos pais até o simples cansaço da luta pela mulher de cada dia. No pano de fundo disso tudo, existe a vontade de um amor incondicional, igual ao que sentimos pelo clube do coração. Um amor que não se troca, que nos esgota de devoção, que às vezes mais desilude que anima, mas está conosco para nos lembrar quem fomos, o que somos e para onde vamos. Bendita a mulher que é amada como uma bandeira.
No entanto, nunca conheci um homem com o desejo de casar-se intransitivamente, sem necessidade de um outro PROTAGONISTA - um erro de percepção visível em alguns espécimes da “nova-mulherzinha”, essa louvável reação natural de vocês ao velho feminismo.
Casos de mulheres que veem no status de casada o topo de uma carreira bem gerenciada são muitos. Depois de ter passado por recruta (peguete), ficante fixa (cabo), namorada (sargento) e noiva (tenente), há um tipo de mulher que se tornará um general a partir do momento em que descer do altar. No casamento de sábado, por exemplo, um convidado me contou que namorou a mesma mulher por 16 anos, mas o casamento só durou um ano.
“De repente, ela começou a querer me proibir de ver até a minha mãe, e depois disse que a casa da minha família em Saquarema sempre foi um programa de índio”, disse-me, e ainda espumava de ódio. Não poderia imaginar que, durante tanto tempo, o amor de sua vida tinha escondido aquele ferrão peçonhento. Não poderia admitir que não deveria ter mexido no time que ganhava. Dezesseis anos de namoro deveriam obrigar o casal a namorar para sempre