A Mulher-troféu

“Desculpe, mas, posso ficar com os dois prêmios?”

Sete dias com Marilyn é uma delícia de filme, para quem é bróder. Boas atuações, roteiro honesto, e toda a recriação de um mito masculino. Não, não falo da atuação de Michelle Williams. Falo da mulher-troféu, essa construção mental que atrapalha a vida de muitos bróderes.

A mulher-troféu é linda, estonteante, tem personalidade e pior, sabe que é gata. Todo mundo aliás sabe. Conquistá-la nunca deixa de ser um ato em público. Há uma plateia que assiste ao maratônico percurso de chegar até ela, há uma salva de palmas quando ela lhe dá atenção, há um pódio que se ergue debaixo dos pés no momento em que ela é beijada e há vários papparazzi, que vão comentar tudo no Facebook. Tem até torcida contra.

Colin passou por tudo isso. Pior, quando estava começando a sair com Lucy, vivida por Emma Watson. Moça que trabalha nos figurinos, tão invisível no set de filmagem quanto o próprio Colin, que não esperava ter seu nome pronunciado por Marilyn.

Primeiro, Colin vive a Síndrome do Caminhãozinho Subdimensionado. Nunca chovera tanto em sua horta. Lucy tá a fim, mas joga duro, é moça de família, que que tá pensando, rapaz; já Marilyn leva a conversa para outro papo. Para o rapaz apaixonado por cinema, sair de braço dado com ela é como ter a existência finalmente decretada no meio de tantos astros e estrelas.

A mulher-troféu não precisa ser exatamente uma estrela. Pode ser a gata da sala de aula, a musa da roleta, a beleza do trabalho, a mais comentada pelos amigos, enfim, é um patrimônio de uma comunidade. Só que há problemas. O principal é que a mulher-troféu sabe que é troféu, então estabelece as regras do seu jogo. Dá as cartas e muda as regras quando quer, porque está no altar, e a cada oferenda apresentada, pede outra.

É uma chata, claro, mas putz, é linda.

Há mulheres que melhoram os homens. Há, porém, mulheres que tiram o homem de dentro de si mesmo para poder andar com elas, tornando-o inseguro. Parecem estar se vingando de homens anteriores.

Mulheres sentem isso. Pergunte à moça comprometida o que ela pensa sobre traição; a tendência é ver repulsa a ideia, no máximo um último recurso. Pergunte depois à moça comprometida se ela aceitaria dar uma volta com Johnny Depp ou George Clooney, se a chance surgisse (Não se prendam aos meus exemplos. Há tentações para todos os gostos. Sem falar que, às vezes, o homem-troféu é simplesmente ligado, de alguma forma a uma amiga…)

Colin não deu a sorte da distância. Tinha Lucy aos pouquinhos, mas veio o arrastão de Marilyn. No duelo entre a mulher real e a mulher troféu, é como se o homem vivesse décadas a cada minuto. Mas não quero contar o fim do filme. Quero dizer apenas que somos tremendamente bobos.

Ainda mais diante da beleza que amamos celebrar antes mesmo de amar.