A meticulosidade feminina, que torna em arte o que um homem vê como tarefa
Esses dias, fui entrevistado na rua. A repórter de um site apontou-me o microfone, seu câmera me enquadrou e, em poucos segundos, eu me vi indagado sobre aquilo que mais me irritava numa mulher.
Pergunta difícil essa. De nada adiantou dizer que escrevo sobre relacionamentos aqui neste blog. Ao contrário, só deixou minha hipotética fuga mais covarde, se eu a executasse.
Respirei, pensei profundamente por um tempo que não fosse longo demais. Acabei dizendo algo como:
“Acho que a mulher me irrita mais quando ela se deixa ser demasiadamente feminina diante de questões que precisavam ser vistas de uma ótica mais masculina. Como a mulher tem a tendência de ser mais detalhista que o homem, muitas vezes ela se perde em considerações que exigiriam bem menos.”
Gostaria de ter dito que vocês muitas vezes “se imobilizam” nessas considerações subjetivas. Acho que teria sido mais preciso. Felizmente, a repórter estendeu-me o sorriso que os jornalistas esboçam sempre que conseguem um bom material para manusear depois na edição. De certa forma, não me incomodei demais com o que disse, embora possa ser amplamente mal-entendido.
Eu, combatendo a feminilidade em excesso? Você me conhece, e sabe que não é por aí. Vejamos se me explico.
Nós homens muitas vezes adotamos o pragmatismo e aceitamos perdas menores porque queremos de nos livrar dos problemas o mais rapidamente possível. Há muito de escapismo nisso. Posso atribuir tudo isso à nossa baixa resistência à dor (e por extensão, à angústia das situações indecididas), se me permitirem. Não gostamos de estar diante de situações que não dominamos e por isso damos um jeito de sair delas logo. Às vezes pela coragem, às vezes pela covardia, às vezes pela pressa.
Para boa parte dos bróderes, por exemplo, arrumar a mala é uma das tarefas que uma viagem exige – e algo a se fazer rápido, porque é um saco. Para um mulher, arrumar a mala é uma arte subjetiva, que pode definir toda a experiência da viagem. Em cada peça de roupa ou utensílio que se coloque, há uma expectativa ou um temor, um passeio, a programação de um dia, uma ocasião e possíveis respostas a todo um questionário que a viagem possa vir a lhe fazer.
Essa mala guarda no fim, um resumo de beleza, profundidade e densidade,e é possível dissecar a feminilidade de sua empacotadora através dessa meticulosidade. Tudo muito bonito e poético se há tempo para fazer essa análise toda depois. Mas se essa mala chegar atrasada e perder o avião… pode criar outro problema ainda maior. É quando subjetividade demais atrapalha.
“Às vezes, uma mala é só uma mala”. Só não queremos que se tornem duas: uma que é feita, outra que faz, as duas se transformando numa situação pior.
Entendidos?

















