O BRÓDER PALESTINO

 

Estou em Jerusalém, capital de fato de Israel. No que tange à relação homem-mulher, o país consegue amplitudes que nós ocidentais jamais imaginamos.

Notei isso já na primeira noite, quando andei pelo mercado do bairro de Machane Yehuda, onde um DJ e as garotas dançam em frente a um bar. Todo israelense tem uma deselgância discreta que Deus dá e, com a temperatura tranquila, havia um excesso de pernas e sandálias à mostra. Nada que no Brasil não seja bem mais exposto, mas já era um prato cheio e angustiante para o judeu ultraortodoxo que parou e encostou na parede. Com os olhos, ele as devorava.

Dava uma certa pena. Ele sorria meio sem graça – era impossível aquele homem de uns 40 anos passar despercebido com o sobretudo negro (o tal “fedora”) e um chapéu que lembra um pequeno pneu de pelos, sem falar de sua barba ruiva.

Ia ser difícil chamar um cara desse de bróder. Já em território palestino, não teve jeito. Numa visita à cidade de Belém, meu guia se chamava Samer e, depois de passarmos pelo sightseeing obrigatório, o brasileiro quis saber do palestino e vice-versa.

Comecei perguntando o que ele achava da cobertura fechada das cabeças das mulheres. O que chamamos burqa eles chamam de niqab: o niqab mostra os olhos, enquanto a burqa ainda consegue ter um visor revestido por uma tela.

- Minha mulher não usa. Ela só cobre a cabeça com o véu e fica com o rosto à mostra, porque é a única coisa que peço. Mas se ela quisesse usar o niqab, por mim, tudo bem. Normalmente é decisão delas.

- E por que elas escolhem o niqab, se é assim?

- Ah, algumas mulheres são muito bonitas e não querem chamar atenção.

(É preciso dizer que andei por duas cidades palestinas – Ramallah e Belém. Mulheres de niqab são nitidamente minoria, o que é um argumento a favor da versão aparentemente maluca de Samer).

Eu tinha mil perguntas para fazer, mas aí o passeio já estava acabando e ele tinha que fazer a dele.

- Vocês brasileiros pegam quem vocês querem e largam quando querem. Então digamos, por exemplo, que você tenha uma namorada. Você foi viajar, ficou um mês fora e, quando ela voltou, estava com outro cara. Você se zanga com ela?

- Cara, sei lá… eu ficaria triste.

- Mas não há um compromisso? Não tem que resolver isso diante de alguém na Igreja.

- Bom, se você assina o contrato de casamento e se casa é diferente, dá mais trabalho. Mas namorando é assim mesmo. E se ela não pode esperar é sinal de que ela não vale o esforço.

- Mas digamos que você na viagem encontre alguém e tenha um affair durante a viagem. Aí você volta e descobre que sua mulher fez a mesma coisa. Por que é que você ficaria triste?

- Ok, ok, entendi. Cara, nós do Brasil somos um pouco hipócritas. A gente até sabe que essas coisas podem acontecer, só preferimos não ficar sabendo. Não precisa me envolver na história, entende?

- Meu amigo… você tem 33 anos, né? Vou te dar um conselho: casa logo. Casa logo que esses problemas acabam.

E aí Samer me deixou na saída de Belém, onde eu pegaria uma van. Aos 35 anos, casado e com três filhos, ele estava certo de que tinha me dado o melhor conselho que jamais ouvi, com direito a uma citação de Maomé.

E eu concluí que, embora o turista fosse eu, quem viajava loucamente era o Samer.