Livros e Corações

Descobri muito cedo a qualidade de amigo que um livro possui. Nosso pai,  que era um sujeito muito esperto, povoou nossa casa de livros e à eles chamava de nosso tesouro. Com isso, viajamos à muitos lugares onde nunca pisamos, conversamos com grandes pessoas que nunca conhecemos, tivemos ideias vindas de personagens que não criamos, mergulhamos em mundos que não existiam. Não raro éramos tidas como crianças estranhas. Os livros nos abriam universos de novas palavras e horizontes impossíveis e com isso as brincadeiras eram acrescidas de ainda mais imaginação. Nós éramos as páginas dos nossos livros. Árvores que viravam castelos, papel picado que chovia uma chuva de prata, roupas esquecidas ressurgiam como trajes que por nós perambulavam, dando vida à nossos personagens preferidos, enquanto a fantasia nos cercava feito o abraço de alguma criatura alada. Sempre líamos antes de dormir, assim, nossos sonhos eram adoçados por uma caneca de leite com chocolate, um beijo de pai e aquele amontoado de ideias que o livro nos trazia. E a gente sonhava com sítios, cucas, bichos falantes, balões e tapetes que voavam por mil e uma noites. O dia nascia mágico, e prosseguíamos praticando essa magia no nosso dia.

Não atormentávamos o mundo dos adultos com nossas pequenas presenças, como se nota hoje, quando crianças ocupam toda atenção e espaço. Não queríamos ser adultos antes da hora, a gente queria ser só criança mesmo, muito livres quando correndo soltos em quintais que eram cenário para nossas histórias, e quando nos recolhíamos para dentro de cada novo amigo livro que conhecíamos. Éramos crianças alegres na casa da minha infância. Não conhecíamos o significado do que é solidão ou carência. Éramos protegidos pelas asas dos livros. De fato, esse foi o nosso tesouro: aprendemos a amar os livros e com eles aprendemos a ultrapassar a solidão. Ultrapassar a  dor, o vazio, o tédio, a angústia, os males da ansiedade. Se por fora viramos adultos, por dentro ainda conversamos feito crianças com os livros. Nunca estamos sós.

Um livro é um amigo que sempre está em casa. Sempre atende os chamados. Está sempre à espera e de portas abertas. Escolhido não por acaso, serão deles as palavras certas para cada hora incerta. Estranhos seres calados que têm tanto a dizer, os livros fazem o estranho acontecer: em algum recôndito do mundo, um autor resolve contar uma história, ou resolve prosear com o leitor desconhecido sobre suas verdades, suas dúvidas, sua humanidade, seus sonhos, e umas dúzias de folhas de papel se encarregam de amontoar-se em forma de livro e fazer do autor, um íntimo. O que foi lido, adentra-nos e nos forma. Ou reforma. E então serão os clássicos, os romances, os teóricos, os de mil páginas e os curtinhos, que deixam saudade logo de cara. O livro inspira. Permite a pausa. Refresca conceitos, amplia olhares, inaugura talentos, preenche espaços. Ele opina, questiona, afirma, modifica, acalma, consola e nos envolve à todos no aconchego de nos vermos iguais. Próximos. Humanos à caminho. Parecidos em meio a tantas diferenças e semelhantes nas vivências e sentimentos. Gosto de pensar no livro como um coração. Você sabe que é ele quem te mantém vivo. Ele pulsa. Feito um livro.

 

 

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“Os livros são pedaços dos incomensurável.”

 

(Stephan Zweig)