DO RIDÍCULO DAS MUSAS
O conceito de musa é um dos mais interessantes capítulos da arte heterossexual. Vai desde a admiração platônica até as carnalidades das mais explícitas. Muita gente fez gato e sapato de suas próprias musas. Muitas musas fizeram gato e sapato de seus vassalos. E eu começo assim porque uma senhorita disse a um bróder meu cineasta que ”esse negócio de ser musa é meio ridículo”.
Ele caiu para trás e tentou esbravejar um “Como assim?”. Depois conversou comigo a respeito daquela heresia contra o Musismo. Avaliamos juntos a possibilidade de aquilo ser plausível. E a verdade é que é verdade.
Musas e bróderes são ricos em equívocos. Na Divina Comédia, Dante só encontra Beatriz no Paraíso – a parte mais chata do poema inteiro. Salvador Dalí pôs sua mulher, Gala, em muitas de suas obras – até nas que celebrava sua impotência sexual. Helô Pinheiro, a Garota de Ipanema de Tom e Vinícius, posou numa Playboy em ensaio duvidosíssimo, ao lado da filha. John Lennon elegeu Yoko Ono (o que já era muito discutível) e ainda fez os Beatles pagarem por isso. E Roberto Carlos é cheio de altos e baixos quando canta Maria Rita.
(E claro, foi-se o tempo em que mulheres recebiam repentinos poemas de amor com rubor orgulhoso nas faces. Não lhes tiro a razão, moças. Não há nada mais duvidoso do que um “poema contemporâneo de amor”: normalmente não é amor, frequentemente é mais antiquado que contemporâneo e, por fim, poemas repentinos, quando vindos de autor indesejado, constrangem mais do que amigo oculto de firma. Mesmo quando são excelentes.)
Era uma crise: sem o Musismo, seremos obrigados a ver as mulheres como elas são: sem projetar absolutamente nada de nossos desejos, sem garimpar nelas as perfeições que elas mesmas desconhecem. Cogitei então que talvez o amor do século 21 esteja mais para um documentário bem editado do que para um drama passadista.
– Caô monumental – disse o cineasta – Só vou acreditar nisso quando puder responder com um verdadeiro “sim” a perguntas como “Amor, você acha que eu engordei?”.
Eu concluí que poesias e mentiras são feitas do mesmo material – uma realidade que não é suficiente. Ele, por sua vez, decidiu que seu próximo filme se chamaria “Procura-se Musa”.
E jurou pegar muita gente com esse papinho.
















