O desapego

É como saber que seu primeiro amor casou: admitir que só algum forte motivo faz com que, nessas redes sociais, alguém ainda consegue não revelar toda sua vida para outra pessoa.

É como ver as fotos do casamento do seu primeiro amor: um estranho déjà vu, o retorno de uma paisagem que um dia foi imaginação e subitamente surge da memória, com um rosto diferente do original.

É como ver o casamento do seu primeiro amor por fotos: ter que reconhecer que toda história traz consequências, que os convites são limitados, que há escolhas que se refletem noutras escolhas.

É como ver a foto do primeiro amor e não entender mais por que foi primeiro amor, e se perder na ideia de já ter sido pessoas demais – que amaram pessoas esquisitas, que não fazem o tipo que hoje amamos.

É como ver as fotos do casamento do seu primeiro amor e reviver aquele nostálgico prazer de ver a felicidade especial de quem sabia sorrir para um endereço certo.

É como ver o primeiro amor e daí lembrar-se do segundo, do terceiro, do quarto, e entender aquilo que Vinicius dizia, que o amor que se ama é alguém que nos foi trazido de mão em mão por todas as almas que um dia amamos.

É como não ter casado com o primeiro amor, mas saber exatamente por que razão teriam se divorciado, sem filhos, sem imóvel próprio, sem constituição de patrimônio, poucos meses depois de uma festa cara e insatisfatória.

É como entender de uma vez o seu lugar no mundo – por não estar em mais nenhum outro.

Ricardo, o áspero


“Eu nem tento me relacionar mais com mulheres em que eu noto algum grau de leitura de revistas femininas.”

Assim me disse Ricardo, o Zaratustra do Cerrado, bróder de longa data, sério candidato a meu Otto Lara Resende. Ele diz essas coisas de coração, com total desprezo à reportagem de comportamento que padroniza ou metodifica todos os rituais da conquista.

Não tem prazer na caça, não tira uma minhoca a cada enxadada, não se vê pegando gente a cada noitada – e não são poucas noitadas em sua vida, nem raras as mulheres que o querem. O que ele cansou foi dos supermercados da vida.

“Ou é fascinação, ou é a dinheiro”, diz ele, com uma honestidade que raros homens envergam. Sim, Ricardo é mais do que um rostinho bonito. É de uma franqueza suicida para nossos tempos e adestramentos maquiavélicos. Para ele, uma mulher não justifica todos os meios.

Que dirá aquela mulher que se pauta pelo absurdismo das revistas femininas, essas que apimentam a relação, essas que tentam criar padrões e que trazem uma legenda para cada coisa, como se todo homem – e toda mulher – fosse raso como uma piscina de criança. Dessas, ele realmente não se aproxima. Detesta ser legendado, acha que não nasceu pra coisa, e gosta de mulheres que conseguem considerá-lo algo mais que previsível.

Já o vi discordando de mulher bonita em discussão feia – e não é todo homem que faz isso. Há muitos que praticam a concórdia de resultados, aquela que permite pegar na mão e dizer, com voz curva, “meu amor, é exatamente é isso”, concentrando no tato manual toda a energia sexual de quem diz sim para ouvir outro sim.

Ricardo é um raro homem dos nossos tempos. Não que seja absurdamente íntegro, não que não seja vulnerável a qualquer dançarina do Faustão, não que não seja homem de duas cabeças, sujeito aos pecados que nos solteiros ficam irrisórios. Só não tem saco para mulher que lê revistas femininas como quem decifra o mapa do tesouro.

Para compensar, um lado bom: ele empresta livros.

ACREDITE NO HUMOR


Uma das coisas que ainda unem mulheres e homens por esse mundo que adora separar é o humor.

Vocês gostam de homens que as fazem rir; nós gostamos de mulheres que sorriem, e que eventualmente riem das piadas que fazemos. O que nos leva a uma lógica conclusão: o homem pode ser feio, mas tem que saber fazer alguma graça – no sentido mais amplo que a palavra pode ter.

Por tabela: a mulher que regateia sorrisos é um desastre.

Veio-me certa vez um bróder sem currículo no ramo da stand-up comedy, mas com largo histórico de namoradas. Um sedutor que andava bastante mal por causa de uma senhorita.

- Cara, é impressionante. Ela é linda, mas resiste à maioria das minhas piadas. Cada risada dela é rara e preciosa como um troféu – e ele se sentia vazio, como se não soubesse mais fazer o que sempre fez.

Bom, ela pode ser uma chata absoluta ou relativa: ou ela é carrancuda toda vida, como a mulher virtuosa descrita por Nelson Rodrigues, ou ela é apenas uma mulher que não vê graça nele. Em todos os casos, disse a ele que se tratava de uma roubada.

O jornalista e literato Christopher Hitchens (1949-2011) dizia que era mais fácil encontrar comediantes homens do que mulheres – as feministas, habitualmente desprovidas de humor, detestaram a ideia, mas enquanto as humoristas fizeram boas piadas. A tese dele é que isso vinha como necessidade para se fazer notado pelas senhoritas e por fim conquistar. Se a piada não funciona para uma das duas pontas, é provável que o relacionamento como nós o entendemos nos dias de hoje seja um equívoco.

(A não ser é claro, que você seja uma hindu e acredite no casamento sem amor, com uma vida de seriedades e obrigações submissa ao marido e com sexo protocolar – quase uma novela de época. Não recomendo, baby.)

Portanto, acreditem no humor como um dos melhores dos sintomas de que a coisa vai bem, e não economizem no sorriso. Porque às vezes vocês querem rir, mas, para não entregar todo o ouro ao bandido, represam essa gargalhada. Crueldade.

Um sorriso de mulher é a recompensa que mais amamos. Abre todas as portas. Se eu fosse mulher sorriria sempre, só para ver como os homens mais superiores simplesmente se ajoelham nas almas para merecer aqueles dentes.

Os lençóis ainda estavam quentes, e eu ainda não havia notado os fios de cabelo que também estavam deitados na cama conosco quando ela se levantou e foi até a cozinha para buscar água.

Num lance de sorte, virei o rosto e ainda pude ver suas costas nuas, suas pernas olímpicas e o ritmo binário de suas nádegas em marcha, como se buscar um copo d’água fosse uma missão humanitária entregue a alguém que preza o estrito cumprimento do dever.

Sim, ela caminhava até a cozinha como um soldado vitorioso, que deixava para trás de si um inimigo vencido. Como uma enfermeira que conhece as obrigações de seu uniforme branco e se apega a elas mais do que ao sentimento de empatia pelo sofrimento alheio.

Ela também pega água como uma gueixa.

Assim que ela sumiu no corredor, tombei a cabeça para o outro lado, onde a parede branca metaforizava a impossibilidade de outras belezas naquele mesmo quarto depois daquela epifania maior.

A televisão calada, o aparelho de som em silêncio, nenhum pássaro na janela, o resto do mundo respirava em raros ruídos, como as plateias de teatro que tossem para dentro no meio de uma cena crucial.

E sua ida me deu consciência de um vazio mais fundo que todas as privações físicas já sentidas. Nenhuma fome, nenhum calor ou frio na história da minha humanidade mereceram mais autoanálise do que a secura despertada pelo momento em que ela se levantou.

E o atrito da língua no palato movimentava um ar seco como Brasília. Eu tinha os olhos úmidos de um largo cansaço, e o suor dos lençóis se havia evaporado, soprando na pele a necessidade de recorrer à água que viria, como uma bênção, da geladeira dela.

Tentei imaginar de onde viria a água. Poderia ser uma mineral sem gás de 1,5 litro, como as que bebo do gargalo quando jogo bola. Ou uma das bojudas garrafas com tampa de plástico e abas retráteis que imitam as dos bules. Ou das de vidro verde elegante e opaco.

Decidi que vem da moringa de alumínio que a minha avó materna tinha, com o metal suado pelo frescor potável que prometia às gargantas mais áridas.

E, quando ela voltar, nua, trazendo aquele grande copo d’água nas suas mãos pequenas – nas quais ele ganhará a forma de um enorme balde transparente de vida -, o milagre efêmero da satisfação humana se recriará. Até que seja preciso outro gole dela.

A meticulosidade feminina, que torna em arte o que um homem vê como tarefa

Esses dias, fui entrevistado na rua. A repórter de um site apontou-me o microfone, seu câmera me enquadrou e, em poucos segundos, eu me vi indagado sobre aquilo que mais me irritava numa mulher.

Pergunta difícil essa. De nada adiantou dizer que escrevo sobre relacionamentos aqui neste blog. Ao contrário, só deixou minha hipotética fuga mais covarde, se eu a executasse.

Respirei, pensei profundamente por um tempo que não fosse longo demais. Acabei dizendo algo como:

“Acho que a mulher me irrita mais quando ela se deixa ser demasiadamente feminina diante de questões que precisavam ser vistas de uma ótica mais masculina. Como a mulher tem a tendência de ser mais detalhista que o homem, muitas vezes ela se perde em considerações que exigiriam bem menos.”

Gostaria de ter dito que vocês muitas vezes “se imobilizam” nessas considerações subjetivas. Acho que teria sido mais preciso. Felizmente, a repórter estendeu-me o sorriso que os jornalistas esboçam sempre que conseguem um bom material para manusear depois na edição. De certa forma, não me incomodei demais com o que disse, embora possa ser amplamente mal-entendido.

Eu, combatendo a feminilidade em excesso? Você me conhece, e sabe que não é por aí. Vejamos se me explico.

Nós homens muitas vezes adotamos o pragmatismo e aceitamos perdas menores porque queremos de nos livrar dos problemas o mais rapidamente possível. Há muito de escapismo nisso. Posso atribuir tudo isso à nossa baixa resistência à dor (e por extensão, à angústia das situações indecididas), se me permitirem. Não gostamos de estar diante de situações que não dominamos e por isso damos um jeito de sair delas logo. Às vezes pela coragem, às vezes pela covardia, às vezes pela pressa.

Para boa parte dos bróderes, por exemplo, arrumar a mala é uma das tarefas que uma viagem exige – e algo a se fazer rápido, porque é um saco. Para um mulher, arrumar a mala é uma arte subjetiva, que pode definir toda a experiência da viagem. Em cada peça de roupa ou utensílio que se coloque, há uma expectativa ou um temor, um passeio, a programação de um dia, uma ocasião e possíveis respostas a todo um questionário que a viagem possa vir a lhe fazer.

Essa mala guarda no fim, um resumo de beleza, profundidade e densidade,e é possível dissecar a feminilidade de sua empacotadora através dessa meticulosidade. Tudo muito bonito e poético se há tempo para fazer essa análise toda depois. Mas se essa mala chegar atrasada e perder o avião… pode criar outro problema ainda maior. É quando subjetividade demais atrapalha.

“Às vezes, uma mala é só uma mala”. Só não queremos que se tornem duas: uma que é feita, outra que faz, as duas se transformando numa situação pior.

Entendidos?