O desapego
É como saber que seu primeiro amor casou: admitir que só algum forte motivo faz com que, nessas redes sociais, alguém ainda consegue não revelar toda sua vida para outra pessoa.
É como ver as fotos do casamento do seu primeiro amor: um estranho déjà vu, o retorno de uma paisagem que um dia foi imaginação e subitamente surge da memória, com um rosto diferente do original.
É como ver o casamento do seu primeiro amor por fotos: ter que reconhecer que toda história traz consequências, que os convites são limitados, que há escolhas que se refletem noutras escolhas.
É como ver a foto do primeiro amor e não entender mais por que foi primeiro amor, e se perder na ideia de já ter sido pessoas demais – que amaram pessoas esquisitas, que não fazem o tipo que hoje amamos.
É como ver as fotos do casamento do seu primeiro amor e reviver aquele nostálgico prazer de ver a felicidade especial de quem sabia sorrir para um endereço certo.
É como ver o primeiro amor e daí lembrar-se do segundo, do terceiro, do quarto, e entender aquilo que Vinicius dizia, que o amor que se ama é alguém que nos foi trazido de mão em mão por todas as almas que um dia amamos.
É como não ter casado com o primeiro amor, mas saber exatamente por que razão teriam se divorciado, sem filhos, sem imóvel próprio, sem constituição de patrimônio, poucos meses depois de uma festa cara e insatisfatória.
É como entender de uma vez o seu lugar no mundo – por não estar em mais nenhum outro.





















