Objetos de Estimação

Estimação é o sentimento de apreço que se tem por algo, independente do seu real valor. Quer dizer: a gente estima por causa dos valores que nos importam em particular, valores que se passam pelas emoções, sabendo-se que o que nos emociona ultrapassa menções cifradas. Estimar também pode ser o verbo que determina aproximadamente um valor. Eu estimo que um objeto de estimação tenha muito mais valor do que muitas coisas caras, porque neles estão contidas as partículas de felicidade de algum momento especial da nossa vida.
Porque a gente cresce, muda, se forma, se estabelece, monta casa, começa coisas aqui, termina coisas acolá, e assim, pelo caminho vão ficando, junto às coisas que deixamos para trás, um pouquinho de nós. Dizem que é preciso saber desapegar-se, o que de fato é, até para que o caminho nos seja mais leve. Mas existem certas coisas que não nos largam.
Nossos amados objetos de estimação. Em cada objeto que resiste e fica, reside o que desejamos que se perpetue em nós. São como que uma prova material de que as coisas boas vividas não foram uma ilusão, e que permanecem ainda e fortes. Às vezes, se não na maior parte das vezes, são coisas muito bobas, que aos olhos dos outros podem até parecer infantis, mas aos olhos de quem guarda, são objetos raros, de apreço que não tem nada a ver com utilidades banais. Sua utilidade é emocional.
Tenho um amigo que guarda uma camiseta de escola com as assinaturas de todos os seus colegas de oitava série. Está emoldurada e em lugar de destaque em seus aposentos. Para que ele guarda isso? Ninguém precisa perguntar. É óbvio que aquele instante da sua vida foi muito importante e decisivo, e que algo na química daquele momento o alimenta até hoje. Foi lá que ele fez os melhores amigos da sua vida. E os mantém até hoje. Conheço gente que guarda conchinhas da praia. Conchas e mais conchas num bonito vidro transparente. Gente assim não tem o mar por perto, então, levam uns pedacinhos de praia pra casa que é pra sentir o perfume da maresia e os calores do último verão. Os sentidos que são muito espertos já conhecem a associação.
O objeto de estimação da minha sobrinha é um sapinho de pelúcia do tamanho da sua pequena mão. Brinquedos e mais brinquedos e quando olho para ela, lá estão ela e o sapinho. Inclusive parece ser caso de amor correspondido porque o bendito do sapinho não parece querer sair da sua mão. Porquê? Vai saber! Minha mãe tem por estimação medalhinhas de santo. De todos os santos, de todos os lugares onde ela vai, e ainda os que ela ganha porque todos sabem do seu apreço pelas medalhinhas. Na sua bolsa, inclusive, tem muitas de reserva que ela distribui por achar que proteção tem muito a ver com estima.
Tenho amiga que guarda boneca, amigo que guarda camisetas de shows de rock, gente que guarda objetos antigos de família, camafeus, pinguins de geladeira, toalhinhas de crochê, os óculos do avô, a penteadeira da vovó, e tantas coisas. Entre elas, claro, os indefectíveis bichos de pelúcia. Eu confesso que nem penso em me desfazer de um cachorro marronzinho, um urso verde e um palhacinho minúsculo que ganhei do meu irmão. Por que? Não sei!… tem tanto afeto vibrando neles que simplesmente os estimo e os quero por perto.
Somos seres compostos de lembranças. O espaço entre o que é o hoje e o que já será o amanhã é pequeno e passa muito rápido. Objetos de estimação são como uma comprovação de que a nossa felicidade existe, é próxima e possível. Felizes são aqueles que têm muitas coisas amadas à sua volta como sinal. Felizes também são aqueles que não precisam que suas reminiscências sejam palpáveis porque conseguem mantê-las vivas e fortes em suas memórias afetivas. Felizes são os que, entre um costume e outro, conseguem aumentar, um pouco a cada dia, essa coleção de ternuras e afetos de estimação.
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