Perfume de mulher

Letícia

It’s a long way, repleta de fases e histórias. Letícia Gicovate que o diga, sempre se reinventando e flertando com novos universos. Formada em redação publicitária e em moda, hoje ela mora na Inglaterra e está à frente da Nin, revista de arte erótica que já conta dos duas belas edições. Toda vez que volta para o Rio, ajuda a avó a vender a colônia de alfazema da família, a L’eau de Gly, criada nos anos 70 pela matriarca.

Antes disso, ela já foi figurinista, participou de campanhas internacionais, filmou em Machu Pichu e trabalhou até num filme indiano. Depois, passou um ano sabático em Berlim e, quando voltou ao Brasil, trabalhou como redatora de moda até sua filha Catarina nascer.

Indefinível, muitas em uma, mutante, apaixonada por arte e exploradora de toda forma de potência feminina – entre as linhas da moda, os contornos corporais ou as sensações intangíveis de um aroma repleto de afeto – Letícia mostra coragem de inovar. Sempre, claro, trazendo criatividade e inspiração para os mínimos detalhes.

Nin 2

Conta um pouco da sua relação com a moda e a estética.
Cresci rodeada de beleza num ambiente familiar muito inspirador, ao mesmo tempo minha madrinha era estilista então eu brincava entre tecidos e croquis. Muito novinha eu já desenhava vestidos e tinha a noção exata do que queria vestir, ao mesmo tempo lia muito e escrevia sem parar. Acabei estudando publicidade e moda por que não conseguia escolher, hoje consigo conciliar bem as duas paixões.

Por que decidiu dar um tempo na carreira de figurinista? Cogita voltar?
Em 8 anos de carreira vivi muitas experiência inesquecíveis, fiz muitos trabalhos dos quais me orgulho e sinto que foi um ciclo maravilhoso que se fechou redondinho. Hoje em dia prefiro pensar a moda, pesquisar e analisar tendências, estudar os rumos do mercado e depois compartilhar o que aprendi!

Letícia figurino

Você tem uma relação com o feminino muito forte. A admiração por sua avó, a revista feita para nós. Ao mesmo tempo, desconstrói padrões. Como você enxerga o feminino?
Acho que esse fascínio vem de não poder definir, então gosto de mergulhar nos arquétipos, ou pelo menos nos que me cercam, para entender melhor, comunicar e homenagear toda a potência feminina, tudo o que é ser mulher.

O que você aprendeu de mais valioso no seu processo de amadurecimento como mulher?
Que não termina nunca, estou sempre só começando, sempre só aprendendo!

O que você, enquanto mulher, ensina para sua filha para que ela futuramente nos represente da melhor forma possível?
Ensino sobre feminismo na prática, com a dinâmica que ela vê dentro de casa, com as conversas que ela assiste, os livros que leio para ela, a forma como eu me relaciono com as pessoas e com o mundo. Dou a ela segurança e liberdade para que ela se expresse e se mova num mundo mais igual, para que ela seja um agente ativo nessa mudança, fazendo a igualdade acontecer.

Como é criar sua filha num país com uma cultura diferente da sua?
A Catarina estuda numa escola inglesa pública e convive com crianças das mais diversas culturas, o que pra mim não tem preço. Desde cedo ela já está aprendendo o tamanho do mundo e a beleza da diversidade, pode chegar em casa me contando sobre o Ramadan, o festival Diwali ou alguma supertradição inglesa. Tudo isso com um sotaquinho “british” delicioso!

Qual é o papel da arte na sua vida?
É um escape, seja através dos livros, da música ou uma exposição, é o momento que me conecto com alguma coisa que mora mais fundo e que na maioria do tempo não conseguimos ver. É quando a alma vem de encontro à pele!

Quando você sente o cheirinho da L’eau de Gly, o que vem na sua cabeça? O que ele traduz?
O L’eau de Gly é uma fórmula secreta da minha avó e só ela que faz, numa produção superartesanal, até hoje. Sentir esse perfume para mim é sempre uma volta para casa, sinto o cheiro do lençol de linho, da grama molhada do quintal, do pé de alfazema em frente à varanda do quarto. Ao mesmo tempo remete ao glamour da minha avó, a tradição e a elegância que não se esgotam com o tempo. É cheirinho de conforto e delicadeza.

Avó e Nin

O que você mais admira na sua avó?
Minha avó foi meu primeiro ícone fashion, passei a infância metida dentro do seu closet, montando meus primeiros figurinos. Na verdade, faço isso até hoje e ainda encontro preciosidades. Temos uma troca intensa, ela me ensina sobre flores, sobre a beleza e o tempo, e sempre tento assimilar um pouco de sua clareza e de sua altivez. Tenho sorte de ter uma família com muitas mulheres, fortes, belas e inteligentes, sou muito inspirada por todas elas.

Por que e como você decidiu criar a Nin?
Em 2009 passei um período sabático em Berlim e por lá conheci algumas edições independentes que me deram um estalo. Uma revista era a expressão completa que eu queria, uma forma de combinar palavras e imagens de maneira atemporal e relevante. Mas precisei de 5 anos entre pesquisas e devaneios até encontrar minha sócia Alice Galeffi e juntas darmos forma ao conceito da Nin.

Nin

Conta um pouco sobre o “mote” da revista, o “Naked for a reason”.
A Nin é uma revista de arte erótica com curadoria feminina, mas criada para qualquer pessoa que queira pensar o corpo, a sexualidade e o sexo. É uma coleção de imagens, literatura, textos filosóficos e até ensaios acadêmicos que expressam as possibilidades do erotismo. O “Naked For no Reason” vem dessa vontade de naturalizar o tema, de tirar da sombra tudo que se relaciona com a nudez do corpo e os desejos da alma (e vice-versa!)

E hoje, como é a sua rotina? O que tem feito?
Tenho descoberto prazeres cotidianos, aqui aprendi a cozinhar e a cuidar do jardim, amo plantar coisinhas e depois vê-las crescer, florir. Também dou palestras e organizo workshops sobre a Nin, preparo a próxima edição da revista, produzo conteúdo e estudo Creative Writing. Ando ensaiando um livro, quem sabe?

Referências Letícia

Vamos à brincadeira. Top 5 bandas/cantores que você mais tem escutado ultimamente.
Não sou muito ligada a novidades, posso passar a vida toda ouvindo Bob Dylan, Nina Simone, Billie Holiday, Caetano Veloso e Cat Power.

Top 5 artistas plásticos/pintores que você ama.
Cy Twombly, Pollock, Louise Bourgeois, Nan Goldin e Julia Debasse.

Top 5 filmes inesquecíveis.
A Noite, A Grande Beleza, Asas do Desejo, Aquarius e Mary Poppins.

Top 5 escritores/livros.
Virgínia Woolf, J.P. Sartre, Clarice Lispector, Françoise Sagan e Chimamanda Ngozi Adichie.

Arte (de)coração pulsante

Ana Strupmf

Foto: Alessandro Guimarães

As cores e formas de Ana Strumpf saltam e pulsam aos olhos. É nessa batida pop, divertida e repleta de amor que a multicolorida e multifacetada artista deixa sua marca em tudo que faz. A criativa renova o fôlego e preenche espaços com um olhar singular, levando sua arte híbrida para ilustrações, projetos de décor, móveis e para emblemáticas capas de revista.

Não para por aí. Sem fronteiras, seus traços também invadem produtos criados a partir de parcerias com marcas mil. Aqui na Filó, ela já assinou uma linda bolsa para a coleção Instantes Sonhados. O caráter múltiplo se estende à vida pessoal: mãe de gêmeos, Ana é dona de casa e vive na ponte aérea entre SP e NY. Para driblar a correria, a artista recorre à ioga e tem tentando incorporar a meditação na rotina.

Falando em equilíbrio, a ilustradora não resiste a um pretinho básico. “Trabalho com tanta cor que preciso equilibrar. Amo preto, jeans, batom vermelho, listrado, clássicos, pérolas”, revela ela, que é formada em moda. “Minhas paixões são moda, design e arte”.

As nossas também, Ana!

Ana Strumpf

Fotos: acervo pessoal

Confira a entrevista:

Conta para a gente como tudo começou, como a ilustração entrou na sua vida. E o restante dos projetos?
Eu sempre gostei der desenhar, sempre fez parte da minha vida. Desde criança eu dizia que queria ser pintora. Estudei moda e meu trabalho de conclusão de curso foi criar uma loja chamada Garimpo, que usava sobra de tecido da loja de decoração dos meus pais. Tinha muita sobra de tecido que eu reaproveitava. A loja durou 6 anos, foi de 2003 a 2009. Acabou que meu marido passou para uma bolsa de estudo em NY e eu fui com ele. Foi então que fechei a loja. Comecei a desenvolver os projetos de decoração, lado da minha carreira que perdura até hoje. Junto disso também comecei a desenhar de maneira bem orgânica. Comecei a “rabiscar” em capa de revista. Foi bem na época do início do Instagram, postava e todo mundo gostava, repostava. Meu trabalho começou a viralizar em blogs também. Por conta das capas de revista, algumas marcas começaram a me pedir trabalho. Nem eu acredito que eu vivo das minhas criações. Minhas paixões são moda, arte e design, sempre gostei desse universo.

Ana Strumpf 2

Fotos: acervo pessoal

O que tem feito hoje em dia? Quais são seus projetos atuais?
Estou sempre com pé na moda, no design de interiores, decoro minhas capas. Já fui produtora de moda, de revistas, fui vendedora, já fiz curso de desenho. Nunca perdi essa ligação com a moda. Cada hora estou envolvida em um projeto. Também faço produto, gosto de juntar tudo. Produto, cenografia, ilustração. Agora estou em SP, mas sempre volto para NY, me identifico muito com a cidade, é minha preferida. Estou sempre envolvida com marcas internacionais, agora vou fazer parceria com de decoração e de beleza. Tem projeto novo vindo por aí.

Design sempre foi uma paixão? Quais são suas outras paixões?
Além da minha família e amigos, eu amo arte, música, cinema, todas as artes, comer. Passar o fim de semana com minha família, ver seriado. Agora estou vendo “Girls”, “Love” e “Big Little Lies”.

Ana Strumpf

Foto: acervo pessoal

O que te inspira a criar?
Desde andar na rua, em qualquer lugar, ver as pessoas, vitrines, museus, arte. Estou buscando referências sempre. Vejo coisas legais no Instagram, na internet. Meus filhos gêmeos de 3 anos e meio, o Max e o Noah, me inspiram demais. Estou mais solta nesse mundo lúdico das crianças. É uma imaginação tão rica, o mundo infantil me inspira.

Quais são suas referências criativas da ilustração, design, cinema, arte?
Matisse, Keith Haring, Jonas Woods, Brian Calvin. Meu marido é cineasta, adoro cinema. Amei “Moonlight”, uma história belíssima de amor, muito sensível. Adoro a Iris Apfel e todas as senhoras maravilhosas e descoladas do site Advanced Style.

Seu estilo tem a ver com suas criações?
Meu trabalho é supercolorido, mas estou sempre de preto. Já fui adepta ao brechó e usei muita cor e estampa. Hoje sou bem mais básica e prática. Trabalho com tanta cor que preciso equilibrar. Amo preto, jeans, batom vermelho, listrado, clássicos, pérolas.

Sua assinatura é inconfundível, você deixa a sua marca em tudo o que faz. Sempre foi assim? Ou demorou para você achar a sua cara?

Não achei desde o início e estou sempre em busca da evolução. O pop, os contornos pretos, o traço não muda, mas evoluir é bom para não ficar repetitivo. Sempre busco alguma coisa diferente. É um equilíbrio entre estilo e inovação.

Ana Strumpf

Foto: Alessandro Guimarães

Tem algum ritual durante suas criações?
Às vezes eu anoto para não esquecer. Gosto de desenhar no meu local de trabalho, com meu chá que eu adoro, com minha prancheta. Desenho para cima para não ficar com dor na cervical.

O que a arte de criar significa para você?
90% trabalho duro e 10% inspiração. Fazer e refazer. Ócio criativo sempre. Viver de criatividade não é fácil.

Tem algum trabalho favorito?
Gosto dos meus trabalhos autorais, das capas de revista. Adorei um editorial que fiz para a Elle México ultimamente. E dos editoriais que fiz para a Vogue Brasil.

Para você, o que é ser pop?
Ser pop é ser popular, atingir as massas sem me trair. Me respeitando sempre.

O que tem escutado de música?
Fui no último Lollapalooza, assisti ao show do The Weekend. Adoro ir em shows. Tenho ouvido uma banda de soul chamada Cymande. Adoro hip hop, música negra. Drake, Erykah Badu, Kendrick Lamar…

Da Filó para o mundo

Carol Lenz 1

Sabe aquelas pessoas que fazem acontecer? Carol Lenz é dessas. Formada em Design, a atual sócia do Coletivo Estampa é ativa por natureza. Virginiana, ela tenta sempre alcançar o melhor resultado possível (e mais bonito, afinal seu ascendente é em Leão). É como a ilustradora mesma diz: o ótimo é inimigo do bom.

Foi motivada por essa energia que ela fundou a própria empresa, estudou pós-graduação em Estamparia, fez cursos de desenho em Londres e criou a primeira feira de estamparia do Brasil, a Print RJ, que teve sua 3ª edição agora, em março.

Após 6 anos trabalhando na Maria Filó e crescendo junto com a essência da marca, um belo dia, em 2013, ela resolveu mudar. Levou todo o aprendizado daqui para sua nova fase. Hoje ela continua próxima, desenhando estampas para diversas marcas brasileiras, norte-americanas, chinesas, australianas e turcas.

Se você for carioca e quiser conhecer a designer de pertinho, fica a dica: hoje, às 18h30, ela comanda um bate-papo sobre o processo criativo do desenvolvimento de uma estampa. Vai ser lá na Casa Rosa da Gávea, que abre as portas para o coletivo de moda Carandaí 25.

Voa, Carol!

Confira a entrevista:

Você sempre quis se especializar em estampa?
Não. Foi totalmente por acaso. Eu era gerente de Design na Maria Filó, um dia fui ajudar a fazer uma estampa e acabei indo para a Estamparia.

Como você decidiu criar sua própria estamparia? Quando foi isso?
Precisava de um espaço maior, expandir meu lado de criação. Me juntei com minha sócia e criei o Coletivo Estampa.

Como é viver de criação?
É muito bom quando o resultado acontece. É uma delícia, mas tem que ter resultado. Procuro entender a marca, ela deve ser estudada em sua plenitude. É feita uma curadoria, procuro entender os detalhes para ser bem assertiva e faço a leitura do resultado comercial. Tentar conciliar esses dois lados é meu desafio.

Carol Lenz 3

Como você define o seu estilo?
Ele é muito particular. Tenho meu estilo, não adianta. Com a idade, a gente vai ficando mais segura, hoje sei do que eu gosto. Gosto de coisa boa, prefiro pensar na qualidade mais que na quantidade. E nas estampas, prefiro as de bicho e as figurativas. Também gosto de sapatos esquisitos, marcantes, com personalidade. Gosto muito de bolsa também. Na dúvida, saio inteira de jeans.

Qual é o seu lugar preferido para desenhar?
Com uma boa iluminação e música. Sem interferência de outras demandas para me concentrar. Como tenho que ir de marca infantil a adulta, preciso me reinventar e não tem tempo para intervalo.

O que é moda para você?
Moda é se sentir bem confortável com seu estilo. No trabalho, por exemplo, evito fazer julgamento para mergulhar no universo de cada cliente. Não posso me apegar a nenhuma característica minha na hora de criar.

E ser mulher? O que representa para você?
Muito complicado. É uma delícia, desde que a gente não leve a vaidade tão a sério. Hoje eu estou zero sensual, de macacão, confortável, ontem eu estava mais sensual. Minha roupa depende do meu humor, me visto de acordo com meu mood. Ser mulher permite você agir de acordo com o humor. Alguns dias estou maquiada e outros não. Às vezes posso ser feminina, às vezes posso ser masculina. Ser mulher é passear por esses universos. Ser mulher é difícil também diante das cobranças, ainda se cuidar e estar bem e cabeça. A gente tem que ser mais que os homens.

Carol LenzUma cor… Preto ou branco. Cai bem sempre. Gosto de vermelho também.
Me inspira… As viagens. Saio da zona conforto.
Peça-chave no armário…
 Sapato marcante.
Mais inspirador em mim… Coragem para transformar quando não está bom. Tentar não estacionar, ficar na inércia. Sou ativa, gosto de mudanças.
Me tira do sério…
Acomodação, círculos viciosos, falta de coragem para mudar.
Vício/não passo um dia sem… Uma boa gargalhada.
Para deixar a vida mais leve…
Conexão mente-corpo-coração-espírito. Sexo, yoga, meditação, mantra, música, autoconhecimento.
Uma frase/clichê mais verdadeiro… “Time is now”.
Minha marca registrada… 
Sapatos estranhos e estudar meus clientes.
Trilha sonora para criar…  Whipallas, a banda do meu irmão Pedro. Estou viciada na música “Welcome to the star”.
Na tela… “Stranger things”.
Na mesa…  Experimentar tudo.
Na cabeceira… “1Q84”, de Haruki Murakami.
Musa(o) inspirador… Marni. A marca representa de uma forma divertida de criar estampas sofisticadas e tem senso de humor com uma pitada de sensualidade.

 

Simples assim

Cris Câmara 1

Sem drama, sem “frufru”. Dona de um equilíbrio emocional e de uma paz de espírito de poucos, nossa gerente de Divisão Comercial, Cris Câmara, não abre espaço para mau-humor. Serena que só, no tempo livre ela é do mar, do chope, da MPB e da cara lavada. Não resiste a uma roupa confortável, a um belo dia de sol e ao sorriso frouxo das crianças. Seu programa favorito? Ir a casamentos.

Jornalista de formação, Cris, que está há 17 anos na Maria Filó, trabalhou durante 14 num grande jornal, época em que amadureceu e aprendeu a lidar melhor com as emoções. Falando em aprendizado, o neto Henrique, de 4 anos, mostra para ela que a vida pode (e deve) ser repleta de alegria e humor. O pequeno é apenas um dos 5 homens que a rodeiam: além de casada com um, a gerente é mãe de 3 grandes rapazes.

Para a Cris, fica aqui nosso desejo de um mundo sempre odara!

Cris Câmara 2

Confira a entrevista:

Conta sobre sua fase como repórter.
Foi terminando faculdade, fiz Publicidade, achei que não era a minha cara e depois me formei em Jornalismo. Me inscrevi para um estágio num grande jornal. Fiquei efetiva 14 anos. Comecei na área Geral, que cobre desde batida de automóvel até sequestro de criança. Dá amplitude, fiz de tudo um pouco. Depois fui para a área de Educação, que adorei. Tinha um caderno destinado aos estudantes do vestibular, essa fase foi ótima. Depois passei por Economia, Esporte e Internacional. Depois fiquei mais 2 anos como freelancer, tinha acabado de ter filho, foi bom ter horário flexível.

O que você traz desse período da sua vida? Como ele influencia na sua função hoje?
Muita coisa. Conheci pessoas que já tinham experiência e me ensinaram bastante. Eu era uma pessoa muito emotiva e no jornal consegui me equilibrar emocionalmente, você tem que ser fria. Muitas vezes você vê coisas tristes e complicadas. Tem que ter equilíbrio para não se envolver e conseguir escrever sobre o assunto. Um aprendizado incrível.

Sente falta de escrever? Ou continua escrevendo como hobby?
Não, mas sinto falta de ler. Eu lia muito. Eu gosto de escrever poesia, texto de aniversário. Mas no dia a dia não. Quando tem alguém passando por um momento de transformação, eu sento e escrevo. Apesar de ser desinibida, às vezes me comunico melhor por meio da caneta. Às vezes a emoção fala melhor escrevendo.

Cris Câmara 4

E como você veio parar na Maria Filó?
Quando saí do jornal, resolvi mudar de vida. Já tinha 2 filhos nessa época e estava muito difícil administrar casa, família e trabalho porque eu viajava muito. Resolvi abrir uma empresa de informática com meu marido e outra de tricô com uma amiga da vida toda. Gosto de pesquisar, de desafios e sempre gostei de moda. Tive um problema familiar e tive que voltar ao mercado de trabalho. Fui para uma marca de moda e depois fui chamada para vir para a Maria Filó. Comecei na área administrativa, depois fui para a área de RH e Comercial. Me encontrei. Não importa a profissão, mas para mim é fundamental trabalhar com pessoas.

Trabalhar com moda é…
Amo. Meu tesão é roupa. Além de gente, gosto do belo. A moda está dentro da pessoa, não se ensina. Precisamos estudar e nos aperfeiçoar, mas é natural. Que nem a área comercial. Acho que vendo com tanto entusiasmo que consigo passar para a pessoa. Tem que ter vontade e amor.

E sua maneira de se vestir?
Sou feminina, mas básica. Não sou de frufru. Sei ver o que é bonito. Sou esportiva, sempre gostei de usar tênis, camisão. O modo de se vestir está ligado ao seu comportamento. Sou uma pessoa simples. Passei 10 dias em Búzios agora, amo praia, tudo que circunda esse ambiente. Sentar num bar, tomar um chope, comer um pastel, jogar conversa fora. Quando você vê, já são 22h. Olhar o mar… Quer coisa melhor no mundo?

Cris Câmara 3

Como você se descreveria em 5 palavras?
Intensa, feliz, amorosa, guerreira e amiga.

O que arranca um sorrisão da sua boca?
Uma bobagem me faz gargalhar. Amo ir a casamentos. Crianças, amo, amo.

O que te inspira?
Meus pais. Hoje seria aniversário da minha mãe. A minha mãe era diferente de todas as outras da geração dela. Nenhuma mãe de amiga minha trabalhava. Ela se formou na 3ª turma de Sociologia da faculdade, era muito inteligente, fez parte de um grupo da ONU. Muito generosa e querida. Acho que sou tão ligada em trabalhar a vida toda por causa dela. Meu pai também me inspira. Ele investiu na educação dos filhos, fizemos até intercâmbio. A coisa mais importante que você pode deixar para um filho é educação. A natureza também me inspira. Acordar e olhar o sol. Hoje o dia está lindo.

Está lendo algum livro?
Nova obscuridade, de Jürgen Harbemas. Sobre sustentabilidade.

E a última música que você escutou antes dessa entrevista?
“I’m so happy”, do Pharrell. Amo música, vim cantando no carro hoje. Escuto o dia todo quando vou para a minha casa em Teresópolis. Adoro MPB, Caetano Veloso, Marisa Monte.

Qual é aquela comida que te dá água na boca só de pensar?
Qualquer prato de camarão. E bife, batata frita e farofa.

Você não troca nada por…
Minha paz de espírito. Pior coisa que um ser humano pode ter é ansiedade. Não convive na minha vida. Eu era muito emotiva também e trabalhei isso também. Quando acontece algo, primeiro eu digiro. Depois de 3 dias, quando estiver bem, converso sobre o assunto. Não sou explosiva.

Qual é o seu superpoder?
Equilíbrio emocional. Sou bem tranquila. É muito difícil eu sair do sério. Me monitoro, me controlo.

O que você aprende com o seu neto Henrique que mais ninguém te ensina?
Criança ensina o tempo todo. O Henrique é muito alegre, não existe mau-humor para ele. A vida é muito difícil para ter espaço para mau-humor. Quando a gente é mais jovem, tudo é um drama. Não é por aí.

Poderosa ou emponderada? Poderosa.
O mundo é seu ou você é do mundo? Eu sou do mundo.
Mídi ou longo? Mídi.
Preto ou branco? Preto.
Nova Iorque ou Novo México? Nova Iorque.
Calor do deserto ou frio da neve? Frio da neve.
Cacto ou flor? Flor. Não gosto de cactos.
Jazz ou blues? Jazz.
Salto ou solto? Solto.
Art Déco ou Art Nouveau? Art Déco.
Real ou surreal? Real.
Eu mudo a moda ou a moda me muda? A moda me muda.
Sem dor ou sem pudor? Sem dor.
Meu lugar no mundo é… Com a minha família.
Instagram ou Facebook? Instagram.
The Beatles ou Rolling Stones? The Beatles.
Liso ou estampado? Liso.
Cara lavada ou maquiada? Lavada! Final de semana é minha frase: “Que delícia, estou de cara lavada”.
Listras ou poá? Poá. Total.

 

A criadora e suas criaturinhas

Maíra Senise

Foto: Francisco Costa

Quem nunca olhou para uma tomada e viu um rosto, ou enxergou um animal numa nuvem, num rastro de tinta? Essa experiência visual ganha asas na vivência artística de Maíra Senise, que transforma figuras anamórficas em seres híbridos, com ares de desenhos rupestres. A necessidade criativa de registrar o seu entorno e dar vida às variadas formas a acompanha desde criança, mas antes seu principal foco eram outros contornos: os da moda.

Após trabalhar em marcas como Maria Filó, Andrea Marques e A Colecionadora, Maíra passou a se dedicar às artes plásticas. Não é à toa: a criatividade está no sangue. Ela é filha do pintor Daniel Senise e da cineasta Paula Gaitán, além de irmã do também diretor de cinema Eryk Rocha e da cantora Ava (ambos filhos de Glauber Rocha).

Quando decidiu tornar seus traços mais que um hobby, foi estudar em Nova Iorque na School of Visual Arts e na The Art Students League. Não demorou para que suas “criaturinhas” invadissem a galeria mexicana Machete, que hoje a representa. Agora elas estão prestes a dar novos passos em direção a feiras de arte. Enquanto isso, Maíra cria outros trabalhos que revelam sua estética crua e a o instinto natural em atentar-se aos detalhes da vida.

Confira a entrevista:

Você começou sua carreira trabalhando com moda. Como foi essa transição?
Sempre quis trabalhar com moda, era muito focada e não pensava em plano B. Ser estilista era meu sonho de infância. Todas as minhas ações artísticas eram passatempo, desenhar era diversão. Nunca parei de desenhar, fluía muito fácil, mas nunca achei que fosse trabalhar com isso. Eu desenhava, era automático, meu corpo pedia, mas não sabia o motivo. Com o tempo, comecei a produzir muito desenho e, um dia, uma amiga que faz a Feira Plana viu e disse que eu devia fazer zine com os meus desenhos. Eu nem sabia o que era zine, dei um Google (risos). Fiz e comecei a mostrar para as pessoas de uma maneira muito despretensiosa. Foi quando vi que minhas questões eram plásticas, comecei a mexer com cerâmica, pintura. A coisa começou a crescer, as pessoas passaram a conhecer meu trabalho. Surgiram convites e passei a me dedicar.

O que a moda representa para você?
O que eu acho mais lindo na moda é que tem estilistas fazendo coisas incríveis e colocando em passarelas, lojas. Não tem mais essa divisão tão forte entre moda conceitual e comercial. Estão fazendo coisas poéticas, fortes e inovadoras. A moda representa para mim uma forma muito acessível de comunicar não só seu estado de espírito, mas coisas que você pensa, acredita, gosta, de uma maneira direta, porque é como se fosse mais uma camada de pele, algo que você está carregando. Eu acho muito interessante quando pessoas conseguem transmitir essa personalidade através da roupa de uma forma sincera, única. E não tem regra, quando você entende seus símbolos estéticos na hora de se vestir e a mensagem que você quer passar, mesmo que de forma sutil, isso é muito bonito.

Trabalho Maíra Senise

Foto: divulgação

Sente que agora encontrou o seu lugar?
Sim. Mas continuo querendo produzir algumas peças pontuais, objetos de cerâmica que são o meio do caminho entre as esculturas e acessórios. Eu não entendia que era possível fazer as duas coisas. Agora, mais que encontrar meu lugar, encontrei uma forma confortável de trabalhar. Achei meu universo, minha estética. Mas ela é mutável, os materiais vão mudando, estou confortável de aceitar essas mudanças, apesar de um milhão se inseguranças – que busco transformar em força. Agora acho que vou ficar na pintura a óleo um bom tempo.

Quais são os seus estímulos e inspirações para criar?
Meu estímulo é físico, preciso trabalhar me movimentando fisicamente. Ter um estúdio para onde eu tenha que me locomover é muito importante, criar essa força de ir até lá é quase uma pré-meditação. O material e como eu o uso são as minhas grandes inspirações. E uma estética crua, simples, que trabalha com símbolos. Eu dou espaço para o material me apresentar coisas que me levam para uma figuração. O que surge no processo e o que posso representar a partir disso.

Você desconstrói formas e traz um viés híbrido para suas criações. Da onde vem essa vertente criativa?
Os trabalhos vão nascendo ao enxergar no material possíveis figuras e representações anamórficas. Enxergar um rosto numa mancha, um animal deitado de pernas para cima, – algo que faço muito nas minhas telas – num traço borrado da tinta. Naturalmente essa figuração surge sem ser tão assertiva, ela está sempre se sobrepondo, misturando com o fundo de forma orgânica. Elas vão aparecendo, desaparecendo, ficam camufladas. Esse viés híbrido vem daí. Quando começo um trabalho, tenho 20% pensado, mas 80% são figuras que vão surgindo durante o processo. Eu deixo que o material me mostre na prática.

Maíra Senise 3

Fotos: Vicente de Paula/Vogue

O que suas criações revelam sobre sua maneira de enxergar a vida?
Poeticamente falando, consigo relacionar meu trabalho e meu esforço de enxergar na tela formas à minha maneira de estar sempre tentando enxergar os detalhes da vida. Por exemplo: posso olhar para uma casa e gostar só de um pedaço dela. Sempre me preocupo mais com os detalhes que rodeiam as coisas do que as coisas em si.

Sua arte ganha ares primitivos, remete a um processo fluido, extremamente natural. Até que ponto há essa naturalidade e até que ponto ela é proposital?
Super concordo. A questão da arte primitiva é um universo que me interessa muito, assim como os desenhos de crianças. Não só pela estética que remete à minha, mas pela relação do homem primitivo com o desenho. São dois momentos em que pessoas tentam representar o que está em volta, com o material que têm em mãos, sem a necessidade de estar produzindo uma obra de arte. Acho muito bonito isso. O grande ponto de interseção entre ambos é a necessidade de catalogação do que está em volta, dos animais, dos objetos, pessoas, sem sabermos se era um projeto de arte ou não. As crianças também não sabem o que é arte, mas precisam representar o que está em volta. Os sonhos, a família, o cachorro, a casa. Essa primitividade vem daí. Foi como eu comecei a desenhar, sem saber o motivo, mas eu precisava daquilo. É natural, mas tenho  a preocupação de alimentar essa primitividade. Cada vez mais quero fazer coisas cruas, rústicas, brutas. É uma opção.

Além de pintar, você manipula cerâmica. O que mais te atrai nela? Pensa em se aventurar com novos meios?
A cerâmica veio porque eu queria ver esses seres de maneira 3D. Comecei a fazer tudo com cerâmica, os potinhos da minha casa, meus colares. O que me atrai na cerâmica é uma questão química. Na primeira queima, muitas vezes ela racha, a argila muda de cor, a peça encolhe, explode. É incrível, alquímico, parte do processo não depende de você, é externo. É interessante esse aspecto surpreendente. Se eu pudesse me aventurar, voltaria a fazer peças de roupas, mais bordadas, exclusivas, produzir pouco. Jeans bordados, bonés bordados. São planos para o futuro, quem sabe.

Trabalho Maíra Senise 2

Foto: Galeria Machete

Quais são os seus planos na arte daqui para frente? Algo que possa adiantar?
Acabei de fazer uma exposição na cidade do México. Foi muito legal, a cena de arte contemporânea lá é bem interessante, você consegue ver inspirações da América Latina e dos EUA também, porque fica no meio. Foi ótimo ver um ciclo se fechando. Por enquanto não tenho outra exposição à vista. Sou exclusiva dessa galeria agora, ela deve me representar em feiras. Agora é recomeçar a produzir uma leva de trabalhos para expor em algum momento.

Você cresceu num ambiente com muitos estímulos criativos. Como a sua família contribui para o seu desenvolvimento artístico?
A culpada disso tudo é minha mãe, cresci com ela. Aprendi a ter disciplina no trabalho, a vejo cada vez mais mergulhada no que produz. Ela ensinou a mim e meus irmãos desde pequenos a lidar com a arte de maneira muito natural, a desmistificá-la. Mostrou para a gente muitos filmes, levou a exposições, nos obrigou a ler, a escrever. Esse estímulo fez com que nós tivéssemos uma relação com a arte muito natural. Ela foi uma das primeiras pessoas com as quais me abri falando que queria fazer arte e ela disse que sempre soube. Ela e meus irmãos são um apoio incrível e sempre foram muito honestos com que eles fazem. Trazem a poética artística para o dia a dia.

Inspiração arte

Imagens: Philip Guston | Cy Twombly

Quais são suas principais referências criativas?
Eu curto muito pintores americanos dos anos 50 e 60, Philip Guston, Joni Mitchell, Cy Twombly. Também gosto muito de ver representações folclóricas, objetos ou culturas que trazem representações gráficas muito simples, mas muito elaboradas. Parte deles eu encontro em brechós viajando.