Da Filó para o mundo

Carol Lenz 1

Sabe aquelas pessoas que fazem acontecer? Carol Lenz é dessas. Formada em Design, a atual sócia do Coletivo Estampa é ativa por natureza. Virginiana, ela tenta sempre alcançar o melhor resultado possível (e mais bonito, afinal seu ascendente é em Leão). É como a ilustradora mesma diz: o ótimo é inimigo do bom.

Foi motivada por essa energia que ela fundou a própria empresa, estudou pós-graduação em Estamparia, fez cursos de desenho em Londres e criou a primeira feira de estamparia do Brasil, a Print RJ, que teve sua 3ª edição agora, em março.

Após 6 anos trabalhando na Maria Filó e crescendo junto com a essência da marca, um belo dia, em 2013, ela resolveu mudar. Levou todo o aprendizado daqui para sua nova fase. Hoje ela continua próxima, desenhando estampas para diversas marcas brasileiras, norte-americanas, chinesas, australianas e turcas.

Se você for carioca e quiser conhecer a designer de pertinho, fica a dica: hoje, às 18h30, ela comanda um bate-papo sobre o processo criativo do desenvolvimento de uma estampa. Vai ser lá na Casa Rosa da Gávea, que abre as portas para o coletivo de moda Carandaí 25.

Voa, Carol!

Confira a entrevista:

Você sempre quis se especializar em estampa?
Não. Foi totalmente por acaso. Eu era gerente de Design na Maria Filó, um dia fui ajudar a fazer uma estampa e acabei indo para a Estamparia.

Como você decidiu criar sua própria estamparia? Quando foi isso?
Precisava de um espaço maior, expandir meu lado de criação. Me juntei com minha sócia e criei o Coletivo Estampa.

Como é viver de criação?
É muito bom quando o resultado acontece. É uma delícia, mas tem que ter resultado. Procuro entender a marca, ela deve ser estudada em sua plenitude. É feita uma curadoria, procuro entender os detalhes para ser bem assertiva e faço a leitura do resultado comercial. Tentar conciliar esses dois lados é meu desafio.

Carol Lenz 3

Como você define o seu estilo?
Ele é muito particular. Tenho meu estilo, não adianta. Com a idade, a gente vai ficando mais segura, hoje sei do que eu gosto. Gosto de coisa boa, prefiro pensar na qualidade mais que na quantidade. E nas estampas, prefiro as de bicho e as figurativas. Também gosto de sapatos esquisitos, marcantes, com personalidade. Gosto muito de bolsa também. Na dúvida, saio inteira de jeans.

Qual é o seu lugar preferido para desenhar?
Com uma boa iluminação e música. Sem interferência de outras demandas para me concentrar. Como tenho que ir de marca infantil a adulta, preciso me reinventar e não tem tempo para intervalo.

O que é moda para você?
Moda é se sentir bem confortável com seu estilo. No trabalho, por exemplo, evito fazer julgamento para mergulhar no universo de cada cliente. Não posso me apegar a nenhuma característica minha na hora de criar.

E ser mulher? O que representa para você?
Muito complicado. É uma delícia, desde que a gente não leve a vaidade tão a sério. Hoje eu estou zero sensual, de macacão, confortável, ontem eu estava mais sensual. Minha roupa depende do meu humor, me visto de acordo com meu mood. Ser mulher permite você agir de acordo com o humor. Alguns dias estou maquiada e outros não. Às vezes posso ser feminina, às vezes posso ser masculina. Ser mulher é passear por esses universos. Ser mulher é difícil também diante das cobranças, ainda se cuidar e estar bem e cabeça. A gente tem que ser mais que os homens.

Carol LenzUma cor… Preto ou branco. Cai bem sempre. Gosto de vermelho também.
Me inspira… As viagens. Saio da zona conforto.
Peça-chave no armário…
 Sapato marcante.
Mais inspirador em mim… Coragem para transformar quando não está bom. Tentar não estacionar, ficar na inércia. Sou ativa, gosto de mudanças.
Me tira do sério…
Acomodação, círculos viciosos, falta de coragem para mudar.
Vício/não passo um dia sem… Uma boa gargalhada.
Para deixar a vida mais leve…
Conexão mente-corpo-coração-espírito. Sexo, yoga, meditação, mantra, música, autoconhecimento.
Uma frase/clichê mais verdadeiro… “Time is now”.
Minha marca registrada… 
Sapatos estranhos e estudar meus clientes.
Trilha sonora para criar…  Whipallas, a banda do meu irmão Pedro. Estou viciada na música “Welcome to the star”.
Na tela… “Stranger things”.
Na mesa…  Experimentar tudo.
Na cabeceira… “1Q84”, de Haruki Murakami.
Musa(o) inspirador… Marni. A marca representa de uma forma divertida de criar estampas sofisticadas e tem senso de humor com uma pitada de sensualidade.

 

Simples assim

Cris Câmara 1

Sem drama, sem “frufru”. Dona de um equilíbrio emocional e de uma paz de espírito de poucos, nossa gerente de Divisão Comercial, Cris Câmara, não abre espaço para mau-humor. Serena que só, no tempo livre ela é do mar, do chope, da MPB e da cara lavada. Não resiste a uma roupa confortável, a um belo dia de sol e ao sorriso frouxo das crianças. Seu programa favorito? Ir a casamentos.

Jornalista de formação, Cris, que está há 17 anos na Maria Filó, trabalhou durante 14 num grande jornal, época em que amadureceu e aprendeu a lidar melhor com as emoções. Falando em aprendizado, o neto Henrique, de 4 anos, mostra para ela que a vida pode (e deve) ser repleta de alegria e humor. O pequeno é apenas um dos 5 homens que a rodeiam: além de casada com um, a gerente é mãe de 3 grandes rapazes.

Para a Cris, fica aqui nosso desejo de um mundo sempre odara!

Cris Câmara 2

Confira a entrevista:

Conta sobre sua fase como repórter.
Foi terminando faculdade, fiz Publicidade, achei que não era a minha cara e depois me formei em Jornalismo. Me inscrevi para um estágio num grande jornal. Fiquei efetiva 14 anos. Comecei na área Geral, que cobre desde batida de automóvel até sequestro de criança. Dá amplitude, fiz de tudo um pouco. Depois fui para a área de Educação, que adorei. Tinha um caderno destinado aos estudantes do vestibular, essa fase foi ótima. Depois passei por Economia, Esporte e Internacional. Depois fiquei mais 2 anos como freelancer, tinha acabado de ter filho, foi bom ter horário flexível.

O que você traz desse período da sua vida? Como ele influencia na sua função hoje?
Muita coisa. Conheci pessoas que já tinham experiência e me ensinaram bastante. Eu era uma pessoa muito emotiva e no jornal consegui me equilibrar emocionalmente, você tem que ser fria. Muitas vezes você vê coisas tristes e complicadas. Tem que ter equilíbrio para não se envolver e conseguir escrever sobre o assunto. Um aprendizado incrível.

Sente falta de escrever? Ou continua escrevendo como hobby?
Não, mas sinto falta de ler. Eu lia muito. Eu gosto de escrever poesia, texto de aniversário. Mas no dia a dia não. Quando tem alguém passando por um momento de transformação, eu sento e escrevo. Apesar de ser desinibida, às vezes me comunico melhor por meio da caneta. Às vezes a emoção fala melhor escrevendo.

Cris Câmara 4

E como você veio parar na Maria Filó?
Quando saí do jornal, resolvi mudar de vida. Já tinha 2 filhos nessa época e estava muito difícil administrar casa, família e trabalho porque eu viajava muito. Resolvi abrir uma empresa de informática com meu marido e outra de tricô com uma amiga da vida toda. Gosto de pesquisar, de desafios e sempre gostei de moda. Tive um problema familiar e tive que voltar ao mercado de trabalho. Fui para uma marca de moda e depois fui chamada para vir para a Maria Filó. Comecei na área administrativa, depois fui para a área de RH e Comercial. Me encontrei. Não importa a profissão, mas para mim é fundamental trabalhar com pessoas.

Trabalhar com moda é…
Amo. Meu tesão é roupa. Além de gente, gosto do belo. A moda está dentro da pessoa, não se ensina. Precisamos estudar e nos aperfeiçoar, mas é natural. Que nem a área comercial. Acho que vendo com tanto entusiasmo que consigo passar para a pessoa. Tem que ter vontade e amor.

E sua maneira de se vestir?
Sou feminina, mas básica. Não sou de frufru. Sei ver o que é bonito. Sou esportiva, sempre gostei de usar tênis, camisão. O modo de se vestir está ligado ao seu comportamento. Sou uma pessoa simples. Passei 10 dias em Búzios agora, amo praia, tudo que circunda esse ambiente. Sentar num bar, tomar um chope, comer um pastel, jogar conversa fora. Quando você vê, já são 22h. Olhar o mar… Quer coisa melhor no mundo?

Cris Câmara 3

Como você se descreveria em 5 palavras?
Intensa, feliz, amorosa, guerreira e amiga.

O que arranca um sorrisão da sua boca?
Uma bobagem me faz gargalhar. Amo ir a casamentos. Crianças, amo, amo.

O que te inspira?
Meus pais. Hoje seria aniversário da minha mãe. A minha mãe era diferente de todas as outras da geração dela. Nenhuma mãe de amiga minha trabalhava. Ela se formou na 3ª turma de Sociologia da faculdade, era muito inteligente, fez parte de um grupo da ONU. Muito generosa e querida. Acho que sou tão ligada em trabalhar a vida toda por causa dela. Meu pai também me inspira. Ele investiu na educação dos filhos, fizemos até intercâmbio. A coisa mais importante que você pode deixar para um filho é educação. A natureza também me inspira. Acordar e olhar o sol. Hoje o dia está lindo.

Está lendo algum livro?
Nova obscuridade, de Jürgen Harbemas. Sobre sustentabilidade.

E a última música que você escutou antes dessa entrevista?
“I’m so happy”, do Pharrell. Amo música, vim cantando no carro hoje. Escuto o dia todo quando vou para a minha casa em Teresópolis. Adoro MPB, Caetano Veloso, Marisa Monte.

Qual é aquela comida que te dá água na boca só de pensar?
Qualquer prato de camarão. E bife, batata frita e farofa.

Você não troca nada por…
Minha paz de espírito. Pior coisa que um ser humano pode ter é ansiedade. Não convive na minha vida. Eu era muito emotiva também e trabalhei isso também. Quando acontece algo, primeiro eu digiro. Depois de 3 dias, quando estiver bem, converso sobre o assunto. Não sou explosiva.

Qual é o seu superpoder?
Equilíbrio emocional. Sou bem tranquila. É muito difícil eu sair do sério. Me monitoro, me controlo.

O que você aprende com o seu neto Henrique que mais ninguém te ensina?
Criança ensina o tempo todo. O Henrique é muito alegre, não existe mau-humor para ele. A vida é muito difícil para ter espaço para mau-humor. Quando a gente é mais jovem, tudo é um drama. Não é por aí.

Poderosa ou emponderada? Poderosa.
O mundo é seu ou você é do mundo? Eu sou do mundo.
Mídi ou longo? Mídi.
Preto ou branco? Preto.
Nova Iorque ou Novo México? Nova Iorque.
Calor do deserto ou frio da neve? Frio da neve.
Cacto ou flor? Flor. Não gosto de cactos.
Jazz ou blues? Jazz.
Salto ou solto? Solto.
Art Déco ou Art Nouveau? Art Déco.
Real ou surreal? Real.
Eu mudo a moda ou a moda me muda? A moda me muda.
Sem dor ou sem pudor? Sem dor.
Meu lugar no mundo é… Com a minha família.
Instagram ou Facebook? Instagram.
The Beatles ou Rolling Stones? The Beatles.
Liso ou estampado? Liso.
Cara lavada ou maquiada? Lavada! Final de semana é minha frase: “Que delícia, estou de cara lavada”.
Listras ou poá? Poá. Total.

 

A criadora e suas criaturinhas

Maíra Senise

Foto: Francisco Costa

Quem nunca olhou para uma tomada e viu um rosto, ou enxergou um animal numa nuvem, num rastro de tinta? Essa experiência visual ganha asas na vivência artística de Maíra Senise, que transforma figuras anamórficas em seres híbridos, com ares de desenhos rupestres. A necessidade criativa de registrar o seu entorno e dar vida às variadas formas a acompanha desde criança, mas antes seu principal foco eram outros contornos: os da moda.

Após trabalhar em marcas como Maria Filó, Andrea Marques e A Colecionadora, Maíra passou a se dedicar às artes plásticas. Não é à toa: a criatividade está no sangue. Ela é filha do pintor Daniel Senise e da cineasta Paula Gaitán, além de irmã do também diretor de cinema Eryk Rocha e da cantora Ava (ambos filhos de Glauber Rocha).

Quando decidiu tornar seus traços mais que um hobby, foi estudar em Nova Iorque na School of Visual Arts e na The Art Students League. Não demorou para que suas “criaturinhas” invadissem a galeria mexicana Machete, que hoje a representa. Agora elas estão prestes a dar novos passos em direção a feiras de arte. Enquanto isso, Maíra cria outros trabalhos que revelam sua estética crua e a o instinto natural em atentar-se aos detalhes da vida.

Confira a entrevista:

Você começou sua carreira trabalhando com moda. Como foi essa transição?
Sempre quis trabalhar com moda, era muito focada e não pensava em plano B. Ser estilista era meu sonho de infância. Todas as minhas ações artísticas eram passatempo, desenhar era diversão. Nunca parei de desenhar, fluía muito fácil, mas nunca achei que fosse trabalhar com isso. Eu desenhava, era automático, meu corpo pedia, mas não sabia o motivo. Com o tempo, comecei a produzir muito desenho e, um dia, uma amiga que faz a Feira Plana viu e disse que eu devia fazer zine com os meus desenhos. Eu nem sabia o que era zine, dei um Google (risos). Fiz e comecei a mostrar para as pessoas de uma maneira muito despretensiosa. Foi quando vi que minhas questões eram plásticas, comecei a mexer com cerâmica, pintura. A coisa começou a crescer, as pessoas passaram a conhecer meu trabalho. Surgiram convites e passei a me dedicar.

O que a moda representa para você?
O que eu acho mais lindo na moda é que tem estilistas fazendo coisas incríveis e colocando em passarelas, lojas. Não tem mais essa divisão tão forte entre moda conceitual e comercial. Estão fazendo coisas poéticas, fortes e inovadoras. A moda representa para mim uma forma muito acessível de comunicar não só seu estado de espírito, mas coisas que você pensa, acredita, gosta, de uma maneira direta, porque é como se fosse mais uma camada de pele, algo que você está carregando. Eu acho muito interessante quando pessoas conseguem transmitir essa personalidade através da roupa de uma forma sincera, única. E não tem regra, quando você entende seus símbolos estéticos na hora de se vestir e a mensagem que você quer passar, mesmo que de forma sutil, isso é muito bonito.

Trabalho Maíra Senise

Foto: divulgação

Sente que agora encontrou o seu lugar?
Sim. Mas continuo querendo produzir algumas peças pontuais, objetos de cerâmica que são o meio do caminho entre as esculturas e acessórios. Eu não entendia que era possível fazer as duas coisas. Agora, mais que encontrar meu lugar, encontrei uma forma confortável de trabalhar. Achei meu universo, minha estética. Mas ela é mutável, os materiais vão mudando, estou confortável de aceitar essas mudanças, apesar de um milhão se inseguranças – que busco transformar em força. Agora acho que vou ficar na pintura a óleo um bom tempo.

Quais são os seus estímulos e inspirações para criar?
Meu estímulo é físico, preciso trabalhar me movimentando fisicamente. Ter um estúdio para onde eu tenha que me locomover é muito importante, criar essa força de ir até lá é quase uma pré-meditação. O material e como eu o uso são as minhas grandes inspirações. E uma estética crua, simples, que trabalha com símbolos. Eu dou espaço para o material me apresentar coisas que me levam para uma figuração. O que surge no processo e o que posso representar a partir disso.

Você desconstrói formas e traz um viés híbrido para suas criações. Da onde vem essa vertente criativa?
Os trabalhos vão nascendo ao enxergar no material possíveis figuras e representações anamórficas. Enxergar um rosto numa mancha, um animal deitado de pernas para cima, – algo que faço muito nas minhas telas – num traço borrado da tinta. Naturalmente essa figuração surge sem ser tão assertiva, ela está sempre se sobrepondo, misturando com o fundo de forma orgânica. Elas vão aparecendo, desaparecendo, ficam camufladas. Esse viés híbrido vem daí. Quando começo um trabalho, tenho 20% pensado, mas 80% são figuras que vão surgindo durante o processo. Eu deixo que o material me mostre na prática.

Maíra Senise 3

Fotos: Vicente de Paula/Vogue

O que suas criações revelam sobre sua maneira de enxergar a vida?
Poeticamente falando, consigo relacionar meu trabalho e meu esforço de enxergar na tela formas à minha maneira de estar sempre tentando enxergar os detalhes da vida. Por exemplo: posso olhar para uma casa e gostar só de um pedaço dela. Sempre me preocupo mais com os detalhes que rodeiam as coisas do que as coisas em si.

Sua arte ganha ares primitivos, remete a um processo fluido, extremamente natural. Até que ponto há essa naturalidade e até que ponto ela é proposital?
Super concordo. A questão da arte primitiva é um universo que me interessa muito, assim como os desenhos de crianças. Não só pela estética que remete à minha, mas pela relação do homem primitivo com o desenho. São dois momentos em que pessoas tentam representar o que está em volta, com o material que têm em mãos, sem a necessidade de estar produzindo uma obra de arte. Acho muito bonito isso. O grande ponto de interseção entre ambos é a necessidade de catalogação do que está em volta, dos animais, dos objetos, pessoas, sem sabermos se era um projeto de arte ou não. As crianças também não sabem o que é arte, mas precisam representar o que está em volta. Os sonhos, a família, o cachorro, a casa. Essa primitividade vem daí. Foi como eu comecei a desenhar, sem saber o motivo, mas eu precisava daquilo. É natural, mas tenho  a preocupação de alimentar essa primitividade. Cada vez mais quero fazer coisas cruas, rústicas, brutas. É uma opção.

Além de pintar, você manipula cerâmica. O que mais te atrai nela? Pensa em se aventurar com novos meios?
A cerâmica veio porque eu queria ver esses seres de maneira 3D. Comecei a fazer tudo com cerâmica, os potinhos da minha casa, meus colares. O que me atrai na cerâmica é uma questão química. Na primeira queima, muitas vezes ela racha, a argila muda de cor, a peça encolhe, explode. É incrível, alquímico, parte do processo não depende de você, é externo. É interessante esse aspecto surpreendente. Se eu pudesse me aventurar, voltaria a fazer peças de roupas, mais bordadas, exclusivas, produzir pouco. Jeans bordados, bonés bordados. São planos para o futuro, quem sabe.

Trabalho Maíra Senise 2

Foto: Galeria Machete

Quais são os seus planos na arte daqui para frente? Algo que possa adiantar?
Acabei de fazer uma exposição na cidade do México. Foi muito legal, a cena de arte contemporânea lá é bem interessante, você consegue ver inspirações da América Latina e dos EUA também, porque fica no meio. Foi ótimo ver um ciclo se fechando. Por enquanto não tenho outra exposição à vista. Sou exclusiva dessa galeria agora, ela deve me representar em feiras. Agora é recomeçar a produzir uma leva de trabalhos para expor em algum momento.

Você cresceu num ambiente com muitos estímulos criativos. Como a sua família contribui para o seu desenvolvimento artístico?
A culpada disso tudo é minha mãe, cresci com ela. Aprendi a ter disciplina no trabalho, a vejo cada vez mais mergulhada no que produz. Ela ensinou a mim e meus irmãos desde pequenos a lidar com a arte de maneira muito natural, a desmistificá-la. Mostrou para a gente muitos filmes, levou a exposições, nos obrigou a ler, a escrever. Esse estímulo fez com que nós tivéssemos uma relação com a arte muito natural. Ela foi uma das primeiras pessoas com as quais me abri falando que queria fazer arte e ela disse que sempre soube. Ela e meus irmãos são um apoio incrível e sempre foram muito honestos com que eles fazem. Trazem a poética artística para o dia a dia.

Inspiração arte

Imagens: Philip Guston | Cy Twombly

Quais são suas principais referências criativas?
Eu curto muito pintores americanos dos anos 50 e 60, Philip Guston, Joni Mitchell, Cy Twombly. Também gosto muito de ver representações folclóricas, objetos ou culturas que trazem representações gráficas muito simples, mas muito elaboradas. Parte deles eu encontro em brechós viajando.

Flâneur dos novos tempos

tiago petrik 2

Foto: I Hate Flash

Ele mora numa cidade tropical, abençoada por Deus e bonita por natureza. É flamengo e tem um filho chamado RIOetc. O nome dele? Tiago Petrik, jornalista, fotógrafo, flâneur e cool hunter. À frente do blog que capta a “alma encantadora das ruas” do Rio, busca inspirações diárias e pessoas criativas para clicar com suas almejadas lentes. Personagens esses que mostram toda a sua originalidade no 3º livro de fotos que o projeto acaba de lançar.

Apesar de estar em contato constante com esse lado irreverente moda, Tiago diz que é “basicão”. Um “clichê carioca”, apaixonado por conforto, praia, bar e futebol. Seu ídolo? Zico. Que assim como o jogador, o pai do RIOetc continue emplacando gols e fotos inspiradores todos os dias.

Confira a entrevista: 

Conta para a gente um pouco da sua trajetória como jornalista. Como escolheu a profissão, por onde passou…
Escolhi ser jornalista porque sempre gostei de escrever. E durante muitos anos escrevi na seção de esportes – minha outra paixão. Passei pelo Jornal do Brasil, Lance! e TV Globo. Há nove anos criei o RIOetc com a Renata Abranchs, minha ex-mulher, consultora de moda. Aí comecei a virar fotógrafo também. A fotografia, aliás, também é outro tema pelo qual sempre me interessei.

É uma profissão cada vez mais híbrida e o RIOetc é um ótimo exemplo.
Sim, mudou bastante desde que comecei na profissão. As redações eram muito maiores. A internet ainda estava engatinhando. Apurar era coisa para ser feita in loco. O RIOetc, embora já tenha nascido na era digital, preserva isso do jornalismo das antigas: a gente vai na fonte primária, nossa apuração é na rua.

Como é a sua relação com a escrita?
Continuo gostando muito, mas escrevo menos. E muito menos do que gostaria.

O RIOetc cita o João do Rio como muso inspirador. Que outros escritores você gosta? Está lendo algo agora?
Gosto muito de histórias reais e biografias. Há pouco tempo li a trilogia do Ken Follett sobre o século XX. Recomendo os livros do Pedro Doria (“1565″ é pra quem ama o Rio e quer entender o início de tudo) e as biografias do Joaquim Ferreira dos Santos. Zózimo já está na cabeceira esperando eu terminar o romance que estou lendo agora, “A Livraria Mágica de Paris”, de Nina George.

tiago petrik

Foto: arquivo pessoal

E além da literatura, quem são seus musos/musas inspiradores?
Não diria muso (risos). Mas o Zico é o grande ídolo. E no cinema gosto de todos os filmes do Tarantino.

Você é um típico menino do Rio? Gosta de praia, esporte, é solar? Ou é mais caseiro?
Sim, sou um clichê! Você esqueceu de falar dos bares. Adoro bar também! ;)

Você sempre teve uma relação forte com a moda, mesmo antes do RIOetc?
Não! E nem agora acho que tenho uma relação com moda exatamente, mas sim com comportamento. Moda é uma das formas de expressão, por isso me interesso e por isso interessa ao RIOetc. Claro que o fato de ter convivido tanto tempo com a Renata, que sabe tudo desse assunto, me deu alguma vantagem para entender determinados movimentos também.

Como você define seu estilo?
Sou basicão. E gosto de conforto.

O que mudou no Tiago de antes do RIOetc e de depois?
Caraca, muita coisa. Para começar, por tudo o que aprendi – da fotografia, que eu já fazia, mas longe do que faço agora, às coisas da internet – e todas as pessoas que conheci. Posso dizer que a maior parte das pessoas que conheço encontrei nas ruas, pedindo uma pose.

O que o RIOetc representa para você?
Um filho.

A  “alma encantadora das ruas” é…
Múltipla, diversa, divertida, precisa ser descoberta diariamente. Indefinível por isso.

E a sua alma encantadora, como é?
Já que é para falar, acho que sou gente boa.

Alguma coisa que gostaria de realizar?
Muitas! Ainda este ano, espero, vem aí “A alma encantadora dos blocos”, nossos registros do carnaval de rua carioca. Há sete ou oito anos temos nos dedicado ao tema.

rio etc

Foto: arquivo pessoal

Como foi o processo de criação #volume3?
Foi árduo. Editar o material coletado ao longo de cinco anos é muito trabalhoso. E quem folhear o livro vai perceber por que deu tanto trabalho: todas as páginas conversam entre si. Acho que é o nosso trabalho mais consistente.

Top 5 cantores/banda que você mais tem ouvido ultimamente…
Matheus VK, Lila, Baiana System, Bixiga70, Rubel.

Comida que (se) transforma

David Hertz 1

Foto: Angelo Dal Bó

Com uma ideia inovadora na cabeça e alimentos nas mãos, o chef curitibano David Hertz tinha os ingredientes perfeitos para um prato, ou melhor, um refeitório transformador. O que o motivou? Um mundo com absurdos abismos sociais e desperdício de comida. Diante deste cenário, deixou o emprego num restaurante paulista para ensinar jovens da periferia a cozinhar em sua própria casa, sem cobrar nada por isso. Assim surgiu o projeto Gastromotiva que, a partir de um curso profissionalizante em gastronomia, já capacitou 2.5000 pessoas de baixa renda a ingressar no mercado de trabalho, com 80% deles já empregadas.

O Refeitório Gastromotiva veio logo depois, em parceria com o chef Massimo Bottura. O projeto surgiu nas Olimpíadas, onde eles serviram jantares gratuitos para alimentar pessoas em vulnerabilidade social. E não para por aí: os pratos eram feitos a partir das sobras de ingredientes que iriam para o lixo da Vila Olímpica. O restaurante migrou para o Centro do Rio e vai operar em dois formatos. Já está servindo pessoas carentes à noite sem que elas paguem pelas pelas refeições. A novidade será no almoço, hora em que abrirá ao público em geral, num esquema “pague o almoço e deixe o jantar”.

Não é de emocionar? São pessoas como David que fazem toda a diferença. Confira a entrevista:

Gastromotiva

Foto: Instagram Gastromotiva

O que é ser chef para você?
Hoje o chef, além de um cozinheiro, é um líder. A voz e a influencia dos chefs podem contribuir para os modelos de futuro do consumo da comida e de produção sustentável, com a responsabilidade de que todas as pessoas do mundo tenham direito a fazer uma refeição saudável, com dignidade. Além disso, usando o grande poder de consumo que a comida promove, gerar empregos que incluem pessoas sem oportunidades de trabalho. A cozinha é a ferramenta mais democrática para o aprendizado e para o trabalho.

Como e quando surgiu a ideia de criar o Gastromotiva?
Em 2006, eu deixei minha posição num restaurante paulista para ensinar jovens da periferia a cozinhar na minha própria cozinha, sem cobrar nada por isso. O que começou como um sonho arriscado, acabou se transformando no que a Gastromotiva é hoje. Fiz tudo isso por perceber que a união de toda a bagagem que a vida me proporcionou, aliada ao poder da comida e às necessidades da população mais carente, são o combustível perfeito para a transformação de novas vidas. Esse sonho acabou gerando o 1º projeto social que usaria a gastronomia como ferramenta capaz de promover educação, novos empregos e geração de renda. Nossa 1ª iniciativa foi o Curso de Capacitação em Cozinha, mas hoje já temos projetos para empreendedores, combate à obesidade infantil, regressos do sistema prisional e outros.

E o ReffetoRio Gastromotiva?
O Refettorio Gastromotiva é uma das principais vozes da Gastronomia Social no Mundo. Durante o lançamento do Refettorio Ambrosiano, em 2015, fundado pelo Massimo Bottura, na Itália, a jornalista e nossa amiga em comum Alexandra Forbes fez a ponte e nos conectou. Fui lá cozinhar para pessoas que moravam na rua, junto com a Katia, a Bianca Barbosa e o Diego dos Santos, um dos alunos da Gastromotiva que hoje está se formando na Universidade do Slow Food na Itália. Lá nos conhecemos, nos encantamos um com a proposta do trabalho do outro e resolvemos juntos empreender o Refettorio Gastromotiva, no Rio de Janeiro durante as Olimpíadas, para atuar em 4 pilares: combater o desperdício de alimentos, empoderar jovens, ensinar sobre saúde e alimentação e contribuir com o resgate da dignidade humana. O Refettorio Gastromotiva é um projeto da Gastromotiva (fundado por mim), Food for Soul (do chef Massimo Bottura) e da jornalista Alexandra Forbes, que já serviu mais de 6.500 refeições para pessoas em vulnerabilidade social e evitou o desperdício de mais de 15 mil quilos de ingredientes ótimos para o consumo humano, mas que estavam a caminho do lixo. A iniciativa é um legado para a cidade do Rio de Janeiro. Um HUB do Movimento Global da Gastronomia Social no coração do Rio de Janeiro.

Refettorio Gastromotiva

Foto: Instagram Gastromotiva

Você criou os projetos do zero? Ou se inspirou em outros projetos que viu pelo mundo?
Somos referência em Gastronomia Social no Brasil e no mundo. O movimento se articula de forma orgânica e eu sou um dos porta-vozes, tento levar a questão da gastronomia social para players que nem sempre têm a ver com o tema de cara (como o Banco Mundial, por exemplo). A ideia é que cada vez mais as organizações que utilizam a gastronomia como ferramenta para transformação social se juntem e compartilhem seus trabalhos e boas práticas, aumentando as possibilidades que a gastronomia pode oferecer. Disseminamos, fortalecemos este conceito e nos relacionamos com várias iniciativas desse tipo, como a parceria com o chef Patrick Honauer em Davos (Suíça), os projetos The Clinck, Koto… são vários.

Você passou 7 anos fazendo mochilão pelo mundo. O que você fez nesse tempo? Em quais lugares morou?
Eu nasci em Curitiba e aos aos 18 anos fui morar num Kibutz em Israel. Acabei viajando pelo mundo por 7 anos. Essas viagens me fizeram descobrir minhas maiores paixões: pessoas, comidas e lugares. Nesses caminhos pelo mundo, passei por diversos países, os que mais me marcaram foram a Índia e o Canadá. A Índia tem muitos problemas, mas as pessoas não sentem medo de sair na rua. De alguma forma, a diversidade religiosa e a estrutura das castas trazem respeito pela vida e o espaço uns dos outros. Isso me trouxe segurança para transitar por qualquer lugar. Por outro lado, me lembro que no Canadá alguns amigos limpavam piscinas e neve, e ainda assim tinham condições de passar suas férias em Miami. Eram pessoas simples, mas viviam uma vida com dignidade, mesmo fazendo serviços que não recebem o devido valor na sociedade brasileira.

David Hertz 2

Foto: Angelo Dal Bó

O que te inspira a mudar tantas vidas?
Os abismos sociais, o desperdício de alimentos enquanto tantos passam fome, a falta de oportunidade para jovens… Todas essas constatações nos incomodam e ao mesmo tempo motivam para fazermos cada vez melhor nosso trabalho, reunindo chefs, donos de restaurantes, empresários e produtores em torno do movimento global da Gastronomia Social.

O Gastromotiva funciona em quais cidades?
Hoje estamos em São Paulo, Rio de Janeiro (Gastromotiva e Refettorio Gastromotiva), Curitiba, Salvador e Cidade do México. Esse ano vamos para África do Sul e Argentina.

Sabe quantos alunos já formaram até hoje?
Já graduaram no Curso Profissionalizante em Cozinha mais de 2.500 jovens e 80% deles estão empregados!

Consegue eleger seus 5 pratos preferidos?
Curries tailandeses, moqueca vegetariana, Eggs Benedicts, Molle de frango mexicano e todos os pratos com mandioquinha.