A criadora e suas criaturinhas

Maíra Senise

Foto: Francisco Costa

Quem nunca olhou para uma tomada e viu um rosto, ou enxergou um animal numa nuvem, num rastro de tinta? Essa experiência visual ganha asas na vivência artística de Maíra Senise, que transforma figuras anamórficas em seres híbridos, com ares de desenhos rupestres. A necessidade criativa de registrar o seu entorno e dar vida às variadas formas a acompanha desde criança, mas antes seu principal foco eram outros contornos: os da moda.

Após trabalhar em marcas como Maria Filó, Andrea Marques e A Colecionadora, Maíra passou a se dedicar às artes plásticas. Não é à toa: a criatividade está no sangue. Ela é filha do pintor Daniel Senise e da cineasta Paula Gaitán, além de irmã do também diretor de cinema Eryk Rocha e da cantora Ava (ambos filhos de Glauber Rocha).

Quando decidiu tornar seus traços mais que um hobby, foi estudar em Nova Iorque na School of Visual Arts e na The Art Students League. Não demorou para que suas “criaturinhas” invadissem a galeria mexicana Machete, que hoje a representa. Agora elas estão prestes a dar novos passos em direção a feiras de arte. Enquanto isso, Maíra cria outros trabalhos que revelam sua estética crua e a o instinto natural em atentar-se aos detalhes da vida.

Confira a entrevista:

Você começou sua carreira trabalhando com moda. Como foi essa transição?
Sempre quis trabalhar com moda, era muito focada e não pensava em plano B. Ser estilista era meu sonho de infância. Todas as minhas ações artísticas eram passatempo, desenhar era diversão. Nunca parei de desenhar, fluía muito fácil, mas nunca achei que fosse trabalhar com isso. Eu desenhava, era automático, meu corpo pedia, mas não sabia o motivo. Com o tempo, comecei a produzir muito desenho e, um dia, uma amiga que faz a Feira Plana viu e disse que eu devia fazer zine com os meus desenhos. Eu nem sabia o que era zine, dei um Google (risos). Fiz e comecei a mostrar para as pessoas de uma maneira muito despretensiosa. Foi quando vi que minhas questões eram plásticas, comecei a mexer com cerâmica, pintura. A coisa começou a crescer, as pessoas passaram a conhecer meu trabalho. Surgiram convites e passei a me dedicar.

O que a moda representa para você?
O que eu acho mais lindo na moda é que tem estilistas fazendo coisas incríveis e colocando em passarelas, lojas. Não tem mais essa divisão tão forte entre moda conceitual e comercial. Estão fazendo coisas poéticas, fortes e inovadoras. A moda representa para mim uma forma muito acessível de comunicar não só seu estado de espírito, mas coisas que você pensa, acredita, gosta, de uma maneira direta, porque é como se fosse mais uma camada de pele, algo que você está carregando. Eu acho muito interessante quando pessoas conseguem transmitir essa personalidade através da roupa de uma forma sincera, única. E não tem regra, quando você entende seus símbolos estéticos na hora de se vestir e a mensagem que você quer passar, mesmo que de forma sutil, isso é muito bonito.

Trabalho Maíra Senise

Foto: divulgação

Sente que agora encontrou o seu lugar?
Sim. Mas continuo querendo produzir algumas peças pontuais, objetos de cerâmica que são o meio do caminho entre as esculturas e acessórios. Eu não entendia que era possível fazer as duas coisas. Agora, mais que encontrar meu lugar, encontrei uma forma confortável de trabalhar. Achei meu universo, minha estética. Mas ela é mutável, os materiais vão mudando, estou confortável de aceitar essas mudanças, apesar de um milhão se inseguranças – que busco transformar em força. Agora acho que vou ficar na pintura a óleo um bom tempo.

Quais são os seus estímulos e inspirações para criar?
Meu estímulo é físico, preciso trabalhar me movimentando fisicamente. Ter um estúdio para onde eu tenha que me locomover é muito importante, criar essa força de ir até lá é quase uma pré-meditação. O material e como eu o uso são as minhas grandes inspirações. E uma estética crua, simples, que trabalha com símbolos. Eu dou espaço para o material me apresentar coisas que me levam para uma figuração. O que surge no processo e o que posso representar a partir disso.

Você desconstrói formas e traz um viés híbrido para suas criações. Da onde vem essa vertente criativa?
Os trabalhos vão nascendo ao enxergar no material possíveis figuras e representações anamórficas. Enxergar um rosto numa mancha, um animal deitado de pernas para cima, – algo que faço muito nas minhas telas – num traço borrado da tinta. Naturalmente essa figuração surge sem ser tão assertiva, ela está sempre se sobrepondo, misturando com o fundo de forma orgânica. Elas vão aparecendo, desaparecendo, ficam camufladas. Esse viés híbrido vem daí. Quando começo um trabalho, tenho 20% pensado, mas 80% são figuras que vão surgindo durante o processo. Eu deixo que o material me mostre na prática.

Maíra Senise 3

Fotos: Vicente de Paula/Vogue

O que suas criações revelam sobre sua maneira de enxergar a vida?
Poeticamente falando, consigo relacionar meu trabalho e meu esforço de enxergar na tela formas à minha maneira de estar sempre tentando enxergar os detalhes da vida. Por exemplo: posso olhar para uma casa e gostar só de um pedaço dela. Sempre me preocupo mais com os detalhes que rodeiam as coisas do que as coisas em si.

Sua arte ganha ares primitivos, remete a um processo fluido, extremamente natural. Até que ponto há essa naturalidade e até que ponto ela é proposital?
Super concordo. A questão da arte primitiva é um universo que me interessa muito, assim como os desenhos de crianças. Não só pela estética que remete à minha, mas pela relação do homem primitivo com o desenho. São dois momentos em que pessoas tentam representar o que está em volta, com o material que têm em mãos, sem a necessidade de estar produzindo uma obra de arte. Acho muito bonito isso. O grande ponto de interseção entre ambos é a necessidade de catalogação do que está em volta, dos animais, dos objetos, pessoas, sem sabermos se era um projeto de arte ou não. As crianças também não sabem o que é arte, mas precisam representar o que está em volta. Os sonhos, a família, o cachorro, a casa. Essa primitividade vem daí. Foi como eu comecei a desenhar, sem saber o motivo, mas eu precisava daquilo. É natural, mas tenho  a preocupação de alimentar essa primitividade. Cada vez mais quero fazer coisas cruas, rústicas, brutas. É uma opção.

Além de pintar, você manipula cerâmica. O que mais te atrai nela? Pensa em se aventurar com novos meios?
A cerâmica veio porque eu queria ver esses seres de maneira 3D. Comecei a fazer tudo com cerâmica, os potinhos da minha casa, meus colares. O que me atrai na cerâmica é uma questão química. Na primeira queima, muitas vezes ela racha, a argila muda de cor, a peça encolhe, explode. É incrível, alquímico, parte do processo não depende de você, é externo. É interessante esse aspecto surpreendente. Se eu pudesse me aventurar, voltaria a fazer peças de roupas, mais bordadas, exclusivas, produzir pouco. Jeans bordados, bonés bordados. São planos para o futuro, quem sabe.

Trabalho Maíra Senise 2

Foto: Galeria Machete

Quais são os seus planos na arte daqui para frente? Algo que possa adiantar?
Acabei de fazer uma exposição na cidade do México. Foi muito legal, a cena de arte contemporânea lá é bem interessante, você consegue ver inspirações da América Latina e dos EUA também, porque fica no meio. Foi ótimo ver um ciclo se fechando. Por enquanto não tenho outra exposição à vista. Sou exclusiva dessa galeria agora, ela deve me representar em feiras. Agora é recomeçar a produzir uma leva de trabalhos para expor em algum momento.

Você cresceu num ambiente com muitos estímulos criativos. Como a sua família contribui para o seu desenvolvimento artístico?
A culpada disso tudo é minha mãe, cresci com ela. Aprendi a ter disciplina no trabalho, a vejo cada vez mais mergulhada no que produz. Ela ensinou a mim e meus irmãos desde pequenos a lidar com a arte de maneira muito natural, a desmistificá-la. Mostrou para a gente muitos filmes, levou a exposições, nos obrigou a ler, a escrever. Esse estímulo fez com que nós tivéssemos uma relação com a arte muito natural. Ela foi uma das primeiras pessoas com as quais me abri falando que queria fazer arte e ela disse que sempre soube. Ela e meus irmãos são um apoio incrível e sempre foram muito honestos com que eles fazem. Trazem a poética artística para o dia a dia.

Inspiração arte

Imagens: Philip Guston | Cy Twombly

Quais são suas principais referências criativas?
Eu curto muito pintores americanos dos anos 50 e 60, Philip Guston, Joni Mitchell, Cy Twombly. Também gosto muito de ver representações folclóricas, objetos ou culturas que trazem representações gráficas muito simples, mas muito elaboradas. Parte deles eu encontro em brechós viajando.

Flâneur dos novos tempos

tiago petrik 2

Foto: I Hate Flash

Ele mora numa cidade tropical, abençoada por Deus e bonita por natureza. É flamengo e tem um filho chamado RIOetc. O nome dele? Tiago Petrik, jornalista, fotógrafo, flâneur e cool hunter. À frente do blog que capta a “alma encantadora das ruas” do Rio, busca inspirações diárias e pessoas criativas para clicar com suas almejadas lentes. Personagens esses que mostram toda a sua originalidade no 3º livro de fotos que o projeto acaba de lançar.

Apesar de estar em contato constante com esse lado irreverente moda, Tiago diz que é “basicão”. Um “clichê carioca”, apaixonado por conforto, praia, bar e futebol. Seu ídolo? Zico. Que assim como o jogador, o pai do RIOetc continue emplacando gols e fotos inspiradores todos os dias.

Confira a entrevista: 

Conta para a gente um pouco da sua trajetória como jornalista. Como escolheu a profissão, por onde passou…
Escolhi ser jornalista porque sempre gostei de escrever. E durante muitos anos escrevi na seção de esportes – minha outra paixão. Passei pelo Jornal do Brasil, Lance! e TV Globo. Há nove anos criei o RIOetc com a Renata Abranchs, minha ex-mulher, consultora de moda. Aí comecei a virar fotógrafo também. A fotografia, aliás, também é outro tema pelo qual sempre me interessei.

É uma profissão cada vez mais híbrida e o RIOetc é um ótimo exemplo.
Sim, mudou bastante desde que comecei na profissão. As redações eram muito maiores. A internet ainda estava engatinhando. Apurar era coisa para ser feita in loco. O RIOetc, embora já tenha nascido na era digital, preserva isso do jornalismo das antigas: a gente vai na fonte primária, nossa apuração é na rua.

Como é a sua relação com a escrita?
Continuo gostando muito, mas escrevo menos. E muito menos do que gostaria.

O RIOetc cita o João do Rio como muso inspirador. Que outros escritores você gosta? Está lendo algo agora?
Gosto muito de histórias reais e biografias. Há pouco tempo li a trilogia do Ken Follett sobre o século XX. Recomendo os livros do Pedro Doria (“1565″ é pra quem ama o Rio e quer entender o início de tudo) e as biografias do Joaquim Ferreira dos Santos. Zózimo já está na cabeceira esperando eu terminar o romance que estou lendo agora, “A Livraria Mágica de Paris”, de Nina George.

tiago petrik

Foto: arquivo pessoal

E além da literatura, quem são seus musos/musas inspiradores?
Não diria muso (risos). Mas o Zico é o grande ídolo. E no cinema gosto de todos os filmes do Tarantino.

Você é um típico menino do Rio? Gosta de praia, esporte, é solar? Ou é mais caseiro?
Sim, sou um clichê! Você esqueceu de falar dos bares. Adoro bar também! ;)

Você sempre teve uma relação forte com a moda, mesmo antes do RIOetc?
Não! E nem agora acho que tenho uma relação com moda exatamente, mas sim com comportamento. Moda é uma das formas de expressão, por isso me interesso e por isso interessa ao RIOetc. Claro que o fato de ter convivido tanto tempo com a Renata, que sabe tudo desse assunto, me deu alguma vantagem para entender determinados movimentos também.

Como você define seu estilo?
Sou basicão. E gosto de conforto.

O que mudou no Tiago de antes do RIOetc e de depois?
Caraca, muita coisa. Para começar, por tudo o que aprendi – da fotografia, que eu já fazia, mas longe do que faço agora, às coisas da internet – e todas as pessoas que conheci. Posso dizer que a maior parte das pessoas que conheço encontrei nas ruas, pedindo uma pose.

O que o RIOetc representa para você?
Um filho.

A  “alma encantadora das ruas” é…
Múltipla, diversa, divertida, precisa ser descoberta diariamente. Indefinível por isso.

E a sua alma encantadora, como é?
Já que é para falar, acho que sou gente boa.

Alguma coisa que gostaria de realizar?
Muitas! Ainda este ano, espero, vem aí “A alma encantadora dos blocos”, nossos registros do carnaval de rua carioca. Há sete ou oito anos temos nos dedicado ao tema.

rio etc

Foto: arquivo pessoal

Como foi o processo de criação #volume3?
Foi árduo. Editar o material coletado ao longo de cinco anos é muito trabalhoso. E quem folhear o livro vai perceber por que deu tanto trabalho: todas as páginas conversam entre si. Acho que é o nosso trabalho mais consistente.

Top 5 cantores/banda que você mais tem ouvido ultimamente…
Matheus VK, Lila, Baiana System, Bixiga70, Rubel.

Comida que (se) transforma

David Hertz 1

Foto: Angelo Dal Bó

Com uma ideia inovadora na cabeça e alimentos nas mãos, o chef curitibano David Hertz tinha os ingredientes perfeitos para um prato, ou melhor, um refeitório transformador. O que o motivou? Um mundo com absurdos abismos sociais e desperdício de comida. Diante deste cenário, deixou o emprego num restaurante paulista para ensinar jovens da periferia a cozinhar em sua própria casa, sem cobrar nada por isso. Assim surgiu o projeto Gastromotiva que, a partir de um curso profissionalizante em gastronomia, já capacitou 2.5000 pessoas de baixa renda a ingressar no mercado de trabalho, com 80% deles já empregadas.

O Refeitório Gastromotiva veio logo depois, em parceria com o chef Massimo Bottura. O projeto surgiu nas Olimpíadas, onde eles serviram jantares gratuitos para alimentar pessoas em vulnerabilidade social. E não para por aí: os pratos eram feitos a partir das sobras de ingredientes que iriam para o lixo da Vila Olímpica. O restaurante migrou para o Centro do Rio e vai operar em dois formatos. Já está servindo pessoas carentes à noite sem que elas paguem pelas pelas refeições. A novidade será no almoço, hora em que abrirá ao público em geral, num esquema “pague o almoço e deixe o jantar”.

Não é de emocionar? São pessoas como David que fazem toda a diferença. Confira a entrevista:

Gastromotiva

Foto: Instagram Gastromotiva

O que é ser chef para você?
Hoje o chef, além de um cozinheiro, é um líder. A voz e a influencia dos chefs podem contribuir para os modelos de futuro do consumo da comida e de produção sustentável, com a responsabilidade de que todas as pessoas do mundo tenham direito a fazer uma refeição saudável, com dignidade. Além disso, usando o grande poder de consumo que a comida promove, gerar empregos que incluem pessoas sem oportunidades de trabalho. A cozinha é a ferramenta mais democrática para o aprendizado e para o trabalho.

Como e quando surgiu a ideia de criar o Gastromotiva?
Em 2006, eu deixei minha posição num restaurante paulista para ensinar jovens da periferia a cozinhar na minha própria cozinha, sem cobrar nada por isso. O que começou como um sonho arriscado, acabou se transformando no que a Gastromotiva é hoje. Fiz tudo isso por perceber que a união de toda a bagagem que a vida me proporcionou, aliada ao poder da comida e às necessidades da população mais carente, são o combustível perfeito para a transformação de novas vidas. Esse sonho acabou gerando o 1º projeto social que usaria a gastronomia como ferramenta capaz de promover educação, novos empregos e geração de renda. Nossa 1ª iniciativa foi o Curso de Capacitação em Cozinha, mas hoje já temos projetos para empreendedores, combate à obesidade infantil, regressos do sistema prisional e outros.

E o ReffetoRio Gastromotiva?
O Refettorio Gastromotiva é uma das principais vozes da Gastronomia Social no Mundo. Durante o lançamento do Refettorio Ambrosiano, em 2015, fundado pelo Massimo Bottura, na Itália, a jornalista e nossa amiga em comum Alexandra Forbes fez a ponte e nos conectou. Fui lá cozinhar para pessoas que moravam na rua, junto com a Katia, a Bianca Barbosa e o Diego dos Santos, um dos alunos da Gastromotiva que hoje está se formando na Universidade do Slow Food na Itália. Lá nos conhecemos, nos encantamos um com a proposta do trabalho do outro e resolvemos juntos empreender o Refettorio Gastromotiva, no Rio de Janeiro durante as Olimpíadas, para atuar em 4 pilares: combater o desperdício de alimentos, empoderar jovens, ensinar sobre saúde e alimentação e contribuir com o resgate da dignidade humana. O Refettorio Gastromotiva é um projeto da Gastromotiva (fundado por mim), Food for Soul (do chef Massimo Bottura) e da jornalista Alexandra Forbes, que já serviu mais de 6.500 refeições para pessoas em vulnerabilidade social e evitou o desperdício de mais de 15 mil quilos de ingredientes ótimos para o consumo humano, mas que estavam a caminho do lixo. A iniciativa é um legado para a cidade do Rio de Janeiro. Um HUB do Movimento Global da Gastronomia Social no coração do Rio de Janeiro.

Refettorio Gastromotiva

Foto: Instagram Gastromotiva

Você criou os projetos do zero? Ou se inspirou em outros projetos que viu pelo mundo?
Somos referência em Gastronomia Social no Brasil e no mundo. O movimento se articula de forma orgânica e eu sou um dos porta-vozes, tento levar a questão da gastronomia social para players que nem sempre têm a ver com o tema de cara (como o Banco Mundial, por exemplo). A ideia é que cada vez mais as organizações que utilizam a gastronomia como ferramenta para transformação social se juntem e compartilhem seus trabalhos e boas práticas, aumentando as possibilidades que a gastronomia pode oferecer. Disseminamos, fortalecemos este conceito e nos relacionamos com várias iniciativas desse tipo, como a parceria com o chef Patrick Honauer em Davos (Suíça), os projetos The Clinck, Koto… são vários.

Você passou 7 anos fazendo mochilão pelo mundo. O que você fez nesse tempo? Em quais lugares morou?
Eu nasci em Curitiba e aos aos 18 anos fui morar num Kibutz em Israel. Acabei viajando pelo mundo por 7 anos. Essas viagens me fizeram descobrir minhas maiores paixões: pessoas, comidas e lugares. Nesses caminhos pelo mundo, passei por diversos países, os que mais me marcaram foram a Índia e o Canadá. A Índia tem muitos problemas, mas as pessoas não sentem medo de sair na rua. De alguma forma, a diversidade religiosa e a estrutura das castas trazem respeito pela vida e o espaço uns dos outros. Isso me trouxe segurança para transitar por qualquer lugar. Por outro lado, me lembro que no Canadá alguns amigos limpavam piscinas e neve, e ainda assim tinham condições de passar suas férias em Miami. Eram pessoas simples, mas viviam uma vida com dignidade, mesmo fazendo serviços que não recebem o devido valor na sociedade brasileira.

David Hertz 2

Foto: Angelo Dal Bó

O que te inspira a mudar tantas vidas?
Os abismos sociais, o desperdício de alimentos enquanto tantos passam fome, a falta de oportunidade para jovens… Todas essas constatações nos incomodam e ao mesmo tempo motivam para fazermos cada vez melhor nosso trabalho, reunindo chefs, donos de restaurantes, empresários e produtores em torno do movimento global da Gastronomia Social.

O Gastromotiva funciona em quais cidades?
Hoje estamos em São Paulo, Rio de Janeiro (Gastromotiva e Refettorio Gastromotiva), Curitiba, Salvador e Cidade do México. Esse ano vamos para África do Sul e Argentina.

Sabe quantos alunos já formaram até hoje?
Já graduaram no Curso Profissionalizante em Cozinha mais de 2.500 jovens e 80% deles estão empregados!

Consegue eleger seus 5 pratos preferidos?
Curries tailandeses, moqueca vegetariana, Eggs Benedicts, Molle de frango mexicano e todos os pratos com mandioquinha.

O mundo multicolorido de Kapim

Kapim 3

Há quem diga que fazer uma criança comer bem é quase uma missão impossível. Quando parece não haver esperança, a nutricionista Gabriela Kapim mostra que há, sim, luz – e muitas verduras, frutas, legumes coloridos – no fim do túnel. Unindo pulso firme e muito tato com os pequenos, a apresentadora do programa “Socorro! Meu filho come mal” prova que comer de tudo pode ser uma experiência afetiva, prazerosa e divertida, ainda mais se eles ajudarem na preparação das refeições.

A própria Kapim é um exemplo de que a alimentação é uma questão de hábito. Quando criança, já comia bem. Foi nessa época, mais especificamente aos 5 anos, que ela ganhou o apelido que a acompanha desde então. E acredite, ele nada tem a ver com o fato de Gabriela adorar um verde no prato. Na hora do pique-esconde, elegia o mato, atrás do capinzal, como seu lugar favorito para se abrigar. Pequenina, ela passava desapercebida ali.

Ex-professora de capoeira e hoje mãe de dois filhos, o Antônio e a Sofia, ela revela ter dificuldade de comer pimentão e aipo. Se Kapim tem poucas restrições alimentares, quando se trata de criança, o assunto é diferente. O amor por elas não tem ressalvas. “Minha energia é mais com as crianças. Eu acho que seria difícil eu não trabalhar com elas”.

Kapim 2

Confira a entrevista:

Como e por que você escolheu ser nutricionista?
Escolhi trabalhar com a nutrição na adolescência. Eu sempre gostei de comer bem, de salada, essas coisas. Mas eu viajava muito com os amigos para passear, para os sítios, etc. A gente tinha que se virar para cozinhar e comer direito. Eu tinha duas amigas que faziam isso muito bem e elas me apresentaram verduras e legumes que não faziam parte do cotidiano da minha casa. Fui me encantando cada vez mais. Meu pai já era médico, vi que a alimentação era uma forma bacana de lidar com a saúde.

Como você se especializou em alimentação infantil?
Eu comecei a trabalhar com criança dando aula de capoeira para criança numa escola. E quando me formei em nutrição, o pessoal do colégio, como eu já tinha jeito com as crianças dando aula, me chamaram para ser a nutricionista de lá. Até então eu nunca tinha pensado em trabalhar com nutrição infantil, mas foi o primeiro emprego, né? E primeiro emprego depois de formado a gente acaba topando qualquer coisa e foi ótimo. Me encantei cada vez mais e foi  trazendo resultados cada vez mais bacanas. Um acaso muito bem-vindo.

Kapim 5

Acha que trabalharia com criança mesmo se não fosse nutricionista? Se vê fazendo outra coisa?
Eu acho que eu trabalharia com criança se não fosse nutrição, eu acho que seria difícil eu não trabalhar com criança. Talvez dando aula de educação física em alguma escola ou atividades que lidam com elas, eu com certeza estaria metida. Não necessariamente com a nutrição, eu acho que minha energia é mais com as crianças, se for comparar o que eu gosto mais de trabalhar, com crianças ou nutrição, com certeza é com as crianças.

E nas horas vagas, o que você gosta de fazer?
Eu adoro andar de bicicleta, ir à praia, de preferência fazer tudo isso com meus filhos por perto. Gosto de ir para a cozinha, cozinhar para os amigos. Adoro! Praia, bicicleta, filhos e cozinha (risos).

Quais são suas dicas para uma pessoa que tem que conciliar a vida profissional, social, cuidar da casa, da família e ainda arrumar tempo para cozinhar e se alimentar bem?
A dica é tentar não enlouquecer nesse processo, porque é o que eu faço todos os dias, tento não enlouquecer para dar conta de tudo isso. Mas eu acho que uma dica boa é entender que a gente não precisa dar conta de tudo isso sempre, nem todos os dias. Um dia você vai cozinhar, no outro você vai acabar comendo mal, outro dia você vai trabalhar mais, no outro você vai poder ficar mais com os filhos, dar mais atenção. É entender dentro do dia e da rotina qual é a prioridade, que de fato, em certos momentos algumas áreas dessas vão falhar. Não se cobrar tanto porque a verdade é que são muitas funções importantes. Às vezes não damos conta de todas elas.

Você comia bem na infância? É um hábito familiar ou foi adquirindo com o tempo?
Eu sempre comi muito bem, era muito fissurada em frutas. Engraçado que quando eu era criança, era mais fissurada nas frutas e hoje eu sou mais nos legumes do que nas frutas. Mas de qualquer forma eu como bem desde sempre. Quanto à questão do hábito, acho que são as duas coisas. A conduta, o exemplo, a forma com que os pais se importam com alimentação faz muita diferença para a criança, mas quando não, pode ser um hábito adquirido sim. Caso haja alguém atento, percebendo isso, acho que a criança pode desenvolver ao longo da vida essa percepção e se cuidar, se importar, criando esses valores e esses hábitos, se não vierem da família.

Da onde você acha que vem a resistência da maioria das crianças para descobrir novos alimentos?
Eu acho que essa resistência pode vir dos pais. Eu não tenho tanta certeza, mas pode vir de uma dúvida de nós pais, de se a criança vai gostar daquilo ou não. Os nossos preconceitos, sem querer a gente passa para as crianças. Ou numa resistência ou num lugar das crianças de entender o quão a alimentação é poderosa, como um instrumento de manipulação e de dominar os pais. Acho que têm essas duas coisas.

Kapim 4

Qual é a sua orientação nos casos em que uma criança come quase tudo, mas tem pequenas restrições alimentares, mesmo com os pais tentando mil formas de preparo?
Eu acho, que assim, pequenas restrições alimentares todo mundo tem. Eu por exemplo não como pimentão, só como aipo em determinadas preparações. Pequenas restrições não têm problemas, se a criança come quase tudo. Ela não precisa gostar de tudo, ninguém gosta de tudo. Ela precisa gostar de muitas coisas, ter um repertório vasto e variado na alimentação, mas pequenas restrições não são um problema.

Como os pais podem atrair as crianças para ajudá-los na cozinha? Dá para todas as idades ajudarem?
O que as crianças mais gostam na vida, na maioria das vezes quando tem carinho envolvido e afeto envolvido, é ficar com os pais. Então se os pais convidarem as crianças para irem para cozinha ajudar, com atenção, cuidado e calma, as crianças vão curtir muito. E assim, de todas as idades. Eu lembro de colocar meus filhos na cozinha pequenos. Antônio ficava no bebê conforto, na bancada da pia e a Sofia mal andava também, e já ficava de fralda sentada na bancada da pia, para me ajudar a lavar o tomate ou rasgar a alface. Então, dependendo obviamente da faixa etária, a gente vai dando tarefas adequadas, mas a criança pode estar em contato com a preparação do alimento desde sempre. Quanto mais natural esses alimentos e essa conduta de ir para a cozinha preparar, quanto mais natural tudo isso for, mais fácil a criança vai aprender e se interessar. Vai ser mais descontraído e interessante ela.

A partir de que idade dá para levar a criança para ajudar no preparo, manusear faca, “pilotar” o fogão com supervisão de um adulto?
Desde sempre. As atividades na cozinha vão se adaptando de acordo com a idade. Então, uma criança com um ano de idade consegue rasgar uma folha de alface. Uma com dez anos de idade já começa a aprender a pilotar um fogão. Uma de oito já pode começar a manusear uma faca e por aí vai.

 

E a idade para comer doce? Aconselha alguma que dê para liberar com parcimônia?
Os doces que incluem açúcares refinado, mascavo, até mesmo o mascavo, quanto mais a gente adiar a apresentação desses alimentos para as crianças, melhor. Hoje, a OMS indica que a gente só apresente esses alimentos depois dos dois anos de vida. Quanto mais a gente puder estender isso aí, melhor. Dos doces com adição de açúcar, nenhum é recomendado para crianças. Dá para fazer muito doce sem utilizar açúcar, como por exemplo, com frutas desidratadas, que têm um sabor adocicado, também com frutas e legumes. Precisamos ir educando o paladar das crianças a não comer açúcar. Quem utiliza o açúcar nas composições são os adultos. As crianças não conhecem o doce, então se a gente demorar para apresentar, eles vão demorar para se viciar.

Correndo atrás da moda

caio braz

Foto: Eduardo Magalhães (I Hate Flash)

Dono de uma personalidade para dar, vender e virar moda, Caio Braz conquistou lugar cativo na TV. Com seu jeito irreverente, original e sincero, o repórter do GNT Fashion já reúne mais de 84 mil seguidores no Facebook e 100 mil no Instagram. Se hoje ele é um sucesso fashion, no passado era diferente. “Eu era supercafona”, dispara.

Caio deixou os looks “cafonas” para trás e, nas noites cariocas e paulistas, descobriu um mundo novo. Ultimamente, os estilos que andam fazendo sua cabeça são o agênero (sem gênero feminino ou masculino definido), branco total e superesportivo. “Acho que a moda tem um namoro ótimo com o esporte”, defende.

Por aqui, desejamos que o Caio nunca pare de correr atrás da liberdade ao se vestir e se mostrar para o mundo do jeito que ele é.

Confira a entrevista:

Trabalhar na TV era um sonho ou aconteceu naturalmente?
Foi um pouco dos dois, na verdade. Eu sempre quis trabalhar com comunicação. Comecei na internet, mas a TV era um sonho também. São dois mundos que se complementam. A comunicação na internet é super-horizontal, quem está assistindo participa de todo o processo com você, interage e cria o conteúdo todo com você. A TV é diferente, tem um aparato tecnológico. Você faz transmissões ao vivo que são muito massa. Viajo bastante para poder gravar programas, acabo entrando em contato com outras culturas. A soma dos dois é superlegal.

Qual é o maior desafio de ser repórter de TV?
A TV tem uma velocidade um pouco diferente na internet, não é tão veloz, então quando você vai fazer alguma coisa na televisão, você tem que fazer uma entrega de conteúdo muito mais profunda, inteligente. Talvez a internet ganhe na velocidade, mas não ganhe tanto na profundidade, na qualidade do material. Já para fazer internet, tenho que estar sempre atualizado. Por isso que eu amo fazer os dois.

caio braz 2

Sempre gostou de moda? Como surgiu seu interesse por ela?
Eu acho que antes eu era supercafona. Comecei a me interessar pela cena de moda na noite do Rio e de São Paulo, as pessoas se montam, tinha a cena das drag queens, as hosters, promoters, DJs. Tudo isso tinha um lugar de liberdade muito grande. Acabei entrando na moda através da noite. Depois fui entrando no mundo dos desfiles, participando do Fashion Rio, São Paulo Fashion Week e por aí vai.

O que a moda representa para você?
Eu trabalho com moda, mas acima de tudo trabalho com comunicação. Gosto de falar, de escrever, de apresentar. A moda é uma expressão da nossa identidade, ela quer dizer muito sobre a nossa cultura, sobre nossas crenças, nosso humor, nosso propósito, então eu encaro desse jeito. Hoje em dia eu tenho uma moda superesportiva porque eu virei atleta, estou envolvido com esporte. A gente acaba mudando, a cada ano estamos nos vestindo de maneira diferente porque nos comportamos de um jeito diferente. Muito legal você se permitir se modificar o tempo inteiro, se arriscar e se divertir com isso.

Uma mistura fashion pouco óbvia que você adora?
Amo misturar floral com listra. Listra P&B com floral de fundo escuro. Acho o crash de estampas lindo e cheio de personalidade. Um look meio praia, tropical. Acho mara!

Como você define seu estilo?
Atualmente, superesportivo, bem monocromático e muito branco. Tenho usado branco 5 dias por semana. O look todo branco. Descobri isso recentemente, é clean, tem uma coisa de energia, fresh, espiritualizado.

Como você avalia a moda masculina brasileira?
Acho que está melhorando muito. De uns 3 anos para cá, surgiram várias novas marcas, com design superautoral, passam por um design sem amarras, gênero. É importante esse diálogo na moda, principalmente porque o homem é tão aprisionado pelo machismo, por tentar entrar dentro de uma normatividade. A moda está quebrando isso de uma maneira incrível. Fico feliz.

Caio

Foto: Chico Cerchiaro

O que você destaca de mais interessante que está rolando por lá? Pode ser música, um evento cultural, arte…
Acho que Recife já teve uma cena cultural mais viva, acho que o cinema é o que tem de mais incrível acontecendo lá. Um dos filmes mais incríveis esse ano do Brasil, talvez do mundo, foi Aquarius, com a Sônia Braga. Fala sobre especulação imobiliária e tem uma trilha sonora ótima, fotografia incrível. O Kléber Mendonça Filho é um dos grandes diretores do Brasil. Acho que o Pernambucano consegue falar muito bem sobre a classe média. Os filmes brasileiros sempre falaram muito da pobreza, das favelas, do sertão, da seca. Chegou a hora de falar da classe média também, acho que o cinema de Pernambuco faz isso muito bem. Tem um festival de música muito bom também chamado Coquetel Molotov, que acontece em outubro e é tipo o Lollapalooza de Recife. Eu faço a camisa desse festival há 3 anos.

Falando em cultura e em trilha sonora, o que você tem escutado de música?
Baiana System, Céu, Moby e o novo disco da Lady Gaga.

Algum movimento artístico que inspira você? Sua maneira de se vestir e enxergar a moda?
O agênero. Tenho experimentado muito usar saia, legging, usar muita sobreposição e experimentar essa forma diferente do corpo. É não binário, não é masculino nem feminino. Indefinido, enorme, coisas oversized. A introdução do esporte na nossa cultura também é outro movimento que me inspira. Ao invés do esporte ser um momento quando você vai para a academia, o esporte virou uma coisa da nossa rotina, que já emenda com o trabalho, a faculdade, o bar, o encontro com amigos. O esporte virou um ponto de encontro, de congruência. Amo isso! Acho que a moda tem um namoro ótimo com o esporte.

Quem vê seu bom humor, não te imagina irritado. O que te tira do sério?
É tão clichê falar de preconceito, mas… coisas como homofobia me tira do sério, é um absurdo você ser descriminado, sofrer violência por causa da sua orientação sexual. Não é uma escolha, você nasce assim. Cada pessoa tem uma minoria dentro de si. A sociedade é feita dessa mistura, imagina se todo mundo fosse igual. Ia ser insuportável. Eu tento muito não ser uma pessoa preconceituosa.