Perfume de mulher

Letícia

It’s a long way, repleta de fases e histórias. Letícia Gicovate que o diga, sempre se reinventando e flertando com novos universos. Formada em redação publicitária e em moda, hoje ela mora na Inglaterra e está à frente da Nin, revista de arte erótica que já conta dos duas belas edições. Toda vez que volta para o Rio, ajuda a avó a vender a colônia de alfazema da família, a L’eau de Gly, criada nos anos 70 pela matriarca.

Antes disso, ela já foi figurinista, participou de campanhas internacionais, filmou em Machu Pichu e trabalhou até num filme indiano. Depois, passou um ano sabático em Berlim e, quando voltou ao Brasil, trabalhou como redatora de moda até sua filha Catarina nascer.

Indefinível, muitas em uma, mutante, apaixonada por arte e exploradora de toda forma de potência feminina – entre as linhas da moda, os contornos corporais ou as sensações intangíveis de um aroma repleto de afeto – Letícia mostra coragem de inovar. Sempre, claro, trazendo criatividade e inspiração para os mínimos detalhes.

Nin 2

Conta um pouco da sua relação com a moda e a estética.
Cresci rodeada de beleza num ambiente familiar muito inspirador, ao mesmo tempo minha madrinha era estilista então eu brincava entre tecidos e croquis. Muito novinha eu já desenhava vestidos e tinha a noção exata do que queria vestir, ao mesmo tempo lia muito e escrevia sem parar. Acabei estudando publicidade e moda por que não conseguia escolher, hoje consigo conciliar bem as duas paixões.

Por que decidiu dar um tempo na carreira de figurinista? Cogita voltar?
Em 8 anos de carreira vivi muitas experiência inesquecíveis, fiz muitos trabalhos dos quais me orgulho e sinto que foi um ciclo maravilhoso que se fechou redondinho. Hoje em dia prefiro pensar a moda, pesquisar e analisar tendências, estudar os rumos do mercado e depois compartilhar o que aprendi!

Letícia figurino

Você tem uma relação com o feminino muito forte. A admiração por sua avó, a revista feita para nós. Ao mesmo tempo, desconstrói padrões. Como você enxerga o feminino?
Acho que esse fascínio vem de não poder definir, então gosto de mergulhar nos arquétipos, ou pelo menos nos que me cercam, para entender melhor, comunicar e homenagear toda a potência feminina, tudo o que é ser mulher.

O que você aprendeu de mais valioso no seu processo de amadurecimento como mulher?
Que não termina nunca, estou sempre só começando, sempre só aprendendo!

O que você, enquanto mulher, ensina para sua filha para que ela futuramente nos represente da melhor forma possível?
Ensino sobre feminismo na prática, com a dinâmica que ela vê dentro de casa, com as conversas que ela assiste, os livros que leio para ela, a forma como eu me relaciono com as pessoas e com o mundo. Dou a ela segurança e liberdade para que ela se expresse e se mova num mundo mais igual, para que ela seja um agente ativo nessa mudança, fazendo a igualdade acontecer.

Como é criar sua filha num país com uma cultura diferente da sua?
A Catarina estuda numa escola inglesa pública e convive com crianças das mais diversas culturas, o que pra mim não tem preço. Desde cedo ela já está aprendendo o tamanho do mundo e a beleza da diversidade, pode chegar em casa me contando sobre o Ramadan, o festival Diwali ou alguma supertradição inglesa. Tudo isso com um sotaquinho “british” delicioso!

Qual é o papel da arte na sua vida?
É um escape, seja através dos livros, da música ou uma exposição, é o momento que me conecto com alguma coisa que mora mais fundo e que na maioria do tempo não conseguimos ver. É quando a alma vem de encontro à pele!

Quando você sente o cheirinho da L’eau de Gly, o que vem na sua cabeça? O que ele traduz?
O L’eau de Gly é uma fórmula secreta da minha avó e só ela que faz, numa produção superartesanal, até hoje. Sentir esse perfume para mim é sempre uma volta para casa, sinto o cheiro do lençol de linho, da grama molhada do quintal, do pé de alfazema em frente à varanda do quarto. Ao mesmo tempo remete ao glamour da minha avó, a tradição e a elegância que não se esgotam com o tempo. É cheirinho de conforto e delicadeza.

Avó e Nin

O que você mais admira na sua avó?
Minha avó foi meu primeiro ícone fashion, passei a infância metida dentro do seu closet, montando meus primeiros figurinos. Na verdade, faço isso até hoje e ainda encontro preciosidades. Temos uma troca intensa, ela me ensina sobre flores, sobre a beleza e o tempo, e sempre tento assimilar um pouco de sua clareza e de sua altivez. Tenho sorte de ter uma família com muitas mulheres, fortes, belas e inteligentes, sou muito inspirada por todas elas.

Por que e como você decidiu criar a Nin?
Em 2009 passei um período sabático em Berlim e por lá conheci algumas edições independentes que me deram um estalo. Uma revista era a expressão completa que eu queria, uma forma de combinar palavras e imagens de maneira atemporal e relevante. Mas precisei de 5 anos entre pesquisas e devaneios até encontrar minha sócia Alice Galeffi e juntas darmos forma ao conceito da Nin.

Nin

Conta um pouco sobre o “mote” da revista, o “Naked for a reason”.
A Nin é uma revista de arte erótica com curadoria feminina, mas criada para qualquer pessoa que queira pensar o corpo, a sexualidade e o sexo. É uma coleção de imagens, literatura, textos filosóficos e até ensaios acadêmicos que expressam as possibilidades do erotismo. O “Naked For no Reason” vem dessa vontade de naturalizar o tema, de tirar da sombra tudo que se relaciona com a nudez do corpo e os desejos da alma (e vice-versa!)

E hoje, como é a sua rotina? O que tem feito?
Tenho descoberto prazeres cotidianos, aqui aprendi a cozinhar e a cuidar do jardim, amo plantar coisinhas e depois vê-las crescer, florir. Também dou palestras e organizo workshops sobre a Nin, preparo a próxima edição da revista, produzo conteúdo e estudo Creative Writing. Ando ensaiando um livro, quem sabe?

Referências Letícia

Vamos à brincadeira. Top 5 bandas/cantores que você mais tem escutado ultimamente.
Não sou muito ligada a novidades, posso passar a vida toda ouvindo Bob Dylan, Nina Simone, Billie Holiday, Caetano Veloso e Cat Power.

Top 5 artistas plásticos/pintores que você ama.
Cy Twombly, Pollock, Louise Bourgeois, Nan Goldin e Julia Debasse.

Top 5 filmes inesquecíveis.
A Noite, A Grande Beleza, Asas do Desejo, Aquarius e Mary Poppins.

Top 5 escritores/livros.
Virgínia Woolf, J.P. Sartre, Clarice Lispector, Françoise Sagan e Chimamanda Ngozi Adichie.